Óbvio

Sem a menor ideia sobre o que escrever, acordei e constatei a hora avançada, para o meu padrão. Dei uma olhadela nas notícias veiculadas pela internet e me surpreendi porque que o Papa Francisco contrariou todos as recomendações, para viajar ao Iraque, em plena pandemia. Já vacinado, o pontífice manteve o uso da máscara ao interagir com autoridades e demais pessoas que o receberam, em um sinal claro de respeito ao próximo. Afinal, ele está imune, a maior parte das pessoas ainda não!



Menos de 24 horas antes desta notícia, acompanhamos o escárnio do atual presidente brasileiro em relação à pandemia e suas consequências. Para este senhor, o fato do Brasil ter enterrado mais de 260 mil pessoas parece irrelevante, tanto que ele se sentiu confortável para recomendar aos que exigem a compra de mais vacinas que as encontrassem “na casa da mãe”. Não satisfeito, questionou: “Até quando vão ficar chorando?”

Entendo que ninguém, em sã consciência, se sentiria em paz para dar declarações como esta, de forma pública. Por isso, vejo o episódio como o ápice do uso do recurso conhecido como “Cortina de Fumaça”. É simples: faz-se declaração absurda, com a finalidade de causar polêmica e, como isso, assimilar a atenção das pessoas, que - sem ela – prestariam a atenção ao que é devido. Neste momento, o noticiário gira em torno da compra de uma senhora mansão, em Brasília, sem recursos completamente rastreados para tal aquisição.

Todos sabemos que o novo proprietário tem patrimônio e rendimento familiar incompatíveis para arcar com a compra, o que incendeia as recorrentes suspeições em torno de práticas ilícitas, como a tão falada rachadinha. Nela, políticos assimilam parte considerável do rendimento de seus liderados, retendo o dinheiro público declarado através da folha de pagamento das equipes que lhes servem.

Diante disto, se desenha um quadro, no qual alguns setores - como a própria imprensa, por exemplo – exprime fúria. Já os apoiadores habituais colocam panos quentes e, alguns, ainda fazem coro. Tudo isso, em meio à lotação total de UTIs e ao número recorde de mortos, em um único dia, em razão do descontrole da pandemia no país. Assim, pergunto: até quando a cortina de fumaça será aplicada impunemente, sem que a sociedade se dê conta dela? Até quando as pessoas entrarão em discussões que nem deveriam existir enquanto a classe política gargalha de manobra tão descarada?

Até quando teremos de conviver com uma gestão completamente concentrada em defender os interesses pessoais do presidente e de seus filhos, em detrimento dos interesses de uma nação inteira, literalmente sacrificada e exposta à morte anunciada pela banalização de um vírus cada vez mais letal?

Todas as autoridades brasileiras deveriam estar completamente concentradas naquilo que pode e deve ser feito para ampliar a vacinação e a rede hospitalar. Essas duas finalidades, por si, tiram a margem de qualquer político gastar um único minuto para atuar como advogado em prol de outras causas/pessoas, mais ainda se valendo de deboche para isto!

Então, não se trata de posição ou viés ideológico, mas da luta pelo resguardo de condições mínimas que nos permitam permanecer vivos e sadios, em uma semana que até respiradores de zoológico foram cedidos para uso humano e o sistema de saúde caminha, a passos largos, para o colapso. Depois da lavagem das mãos, uso da máscara e do isolamento, entendo que a atitude mais urgente deve ser a de esvaziar a plateia que embarca na discussão inflamada entre favoráveis e contrários às “declarações polêmicas”, criadas e proferidas com a finalidade de nos desviar do óbvio. E o óbvio é que além de faltar transparência em transação imobiliária de político faltam vacinas e hospitais!!!






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