Amor

“Eu não quero saber de artista nessa casa!” Assim, a matriarca estimulava suas filhas a desenvolverem habilidades e carreiras mais convencionais. Deu graças a Deus quando a caçula abandonara o xilofone. Mas, a arte estava nas idas aos museus, cinemas, teatros, nos livros e na genética...No marido, havia também um músico recolhido, nela própria, grande entusiasmo em torno da literatura.





Como se não bastasse, trataram de enviar a primogênita a uma viagem de mentoria cultural, tutelada por um doutor em filologia e uma professora, casal de amigos, que fizeram as vezes de pais, durante o giro por dezesseis cidades europeias. Bem antes dessa experiência divisora de águas, ainda criança, lembrava que a mesma mãe que “não queria saber de artista naquela casa” perguntara animada, mas à boca pequena: “você quer ser escritora?”

O tempo passou e nos levou para o que chamo de “Era do Grunhido”, etapa na qual as pessoas, no geral, leem pouco e escrevem mal. Essa realidade torna um desafio conduzir muita gente até o fim dessa página, que dirá até o fim de um livro! Então, como jornalista e cronista, vou lhes contar uma história curta, que tem como personagem central uma mulher cosmopolita e apaixonada pelo Rio de Janeiro. “Só troco esse lugar por Nova York ou Paris”, diz ela.

Depois de se livrar do interior e da terrível abordagem na qual perguntam “de quem você é filho?”, se torna natural ter indisposição quanto aos costumes provincianos. Para completar, do ponto de vista material, conquistou tudo o que idealizou para a vida. E por absoluta determinação! Persuadiu o marido a ser mais austero do que ele pretendia. Junto dele, trabalhou insanamente. Como professora, chegou a lecionar para doze turmas, simultaneamente. Chegava em casa exaurida, mas ainda tratava de ver as lições da escola das filhas, checar se as funcionárias haviam limpado tudo à perfeição, porque sempre foi exigente e detalhista. E ainda conseguia disposição para fazer pizzas e sorvetes, além das refeições habituais!

Mais adiante, sacrificava parte do próprio descanso, em pleno sábado, para me buscar na aula de “Criatividade e História da Arte” – disciplinas curriculares, na formação para ensino médio que resolvi cursar (olha a arte aí!). Se fosse detalhar os sacrifícios que ela fez para viabilizar meu ensino superior, em Comunicação Social, na faculdade que - até hoje – é o ponto de origem da maioria dos jornalistas em atividade no RJ, aí, sim, escreveria um livro. Então, prefiro resumir e dizer que, além de professora, ela se desdobrou como “diplomata”, “chanceler” e “lobista familiar”, persuadindo minha avó a custear minha residência universitária, enquanto convertia recursos próprios para outras despesas relacionadas a minha formação, nada barata, diga-se de passagem.

Adiante, já formada, lembro que só consegui dar conta de duas jornadas de trabalho simultâneas, que perfaziam dezesseis horas diárias, em duas empresas de comunicação diferentes, porque ela, simplesmente, comprou um apartamento super bem localizado, no qual eu conseguia dormir minhas três horas e vinte minutos por dia, ao som de marretas, trancada em um quarto, com dois protetores auriculares no ouvido, já que uma reforma acontecia no resto do imóvel.

Anos mais tarde, contra quem me magoou ela disparou: “Já sabia que você não prestava! E havia dito isso para a Raquel”. Ironicamente, quando essa mesma pessoa me deu de presente de aniversário um cão, situação da qual ela tanto fugiu, todos nos surpreendemos. Meses depois, precisei viajar e deixei com ela o cãozinho que, na ocasião, trocava os dentinhos. Ao buscá-lo, só faltei encontrar uma joia feita a partir dos dentes de leite que caíram, tamanho era o zelo com o bichinho! A convivência amoleceu, de vez, o coração pragmático da matriarca...

Dias depois, ela declarou: “Ele é muito fofo! Tenho saudades!” A partir daí, passei a ser mais visitada pelo “neto” do que por qualquer outra coisa. E, quando se encontravam, era uma festa! Tanto o Lupicínio, meu cão, quanto ela comemoravam! Curtiam, brincavam, passeavam duplamente e pareciam duas crianças. Uma canina, outra sexagenária. Outros membros da família vinham me contar, aos risos, que ela adorava o bichinho, ao ponto de transformar os trejeitos dele em anedotas.

Em minha percepção, qualquer autocensura para exprimir afeto em relação às pessoas simplesmente perdia a razão de existir. Com o cão, ela sabia que não seria taxada de vulnerável, carente ou ridícula, por abraçá-lo a todo momento. Naquela relação, era só amor e afeto!

Essa era uma mudança considerável em sua atitude. Mas não foi a única. Com o tempo, percebi que também ganhei a irmã mais velha da qual sempre senti falta. Me senti confortável para falar de minha vida irrestritamente, partilhar aprendizados e reflexões sobre experiências que, há vinte anos atrás, nem mencionaria.

Hoje, estamos longe, como a maioria das pessoas, em meio à pandemia, mesmo assim, ela é a presença mais forte, perene e importante de minha vida, sem sombra de dúvida! Por ter me trazido a esse mundo, ter feito tanto por mim e por me amar tanto eu mataria e morreria por ela. E tudo que eu desejo aos que leram até aqui é que tenham em suas vidas alguém por quem sejam capazes de fazer o mesmo!

Assim se sentiu e escreveu, com exclusividade, para a Clamagazine, Raquel de Andrade. Essa crônica é renovada semanalmente, às sextas-feiras.


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