A águas vão rolar


O céu ficava cada vez mais escuro, enquanto anunciava o pé d´água. Viver a 500 metros do nível do mar e bem no ponto do planeta no qual climas tropical e subtropical se encontram significa lidar com quatro estações a cada dia e muita água marcando a transição entre cada uma delas. “Chuvitiba” não tem este apelido ao acaso. Mesmo assim, encaramos uma estiagem que pode evoluir para seca, segundo especialistas. Por qual motivo isto acontece? Antes de mais nada, cabe dizer que não se trata de um fenômeno inédito. O último registro dele por aqui nem é tão remoto. Já houve seca em 1985. Isto também ocorreu de forma até mais severa em 1963. Contudo, a demanda por água naqueles tempos era menor. Agora, o crescimento da população escancarou a ferida. Temos rodízio de abastecimento de água, coisa que nos obriga a pensar sobre o consumo consciente deste recurso tão precioso quanto finito. Mesmo assim, não raras são as pessoas que o usam de forma irresponsável.


Um exemplo recente se tornou emblemático no condomínio no qual morei. Por lá, bem acima do apartamento no qual eu morava, havia um jovem casal. Eles usavam a máquina de lavar roupas como se não houvesse amanhã e a acústica pífia dos prédios modernos denunciava o mau hábito...Isto me inspirou a monitorar um comitê composto para gerir e criar soluções para a crise hídrica, no Paraná. A partir daí veiculei uma série de publicações com a esperança de mudar aquele hábito. Mas, como de costume, as pessoas que mais precisam são as que menos buscam informação. Quadro que sustentou o mau hábito dos antigos vizinhos, enquanto crescia a minha indignação! Houve um momento em que me cansei daquilo e enviei a reportagem mais recente sobre o assunto ao grupo do condomínio, revelando o motivo que me levara a empreender as publicações. Só assim o uso desmedido da máquina de lavar parou. Pouco depois, soube de uma iniciativa do governo local, através do lançamento de um disk denúncia para o uso desmedido da água. Medida que comemorei! Publiquei o telefone por meio do qual todos poderiam denunciar este tipo de comportamento com alegria! Há situações nas quais somos exitosos diante do que não tem cabimento e precisa ser socialmente corrigido, ainda que de forma super pontual e modesta. Em muitas outras, falamos ao vento. Um exemplo disso foram as muitas mortes causadas pelo covid. Perdi a conta das vezes que tentei mostrar o quanto o uso das máscaras e a manutenção do distanciamento e isolamento social são imprescindíveis para a vitória desta luta travada pela humanidade, contra o vírus. Em vão. Se foram tantas pessoas. Algumas das quais próximas...De um jeito tal que se foi também a minha esperança, minha paciência e minha vontade de levantar certas bandeiras. Tenho para mim que a maior parte das pessoas não reconhece a própria quota de responsabilidade diante que acontece. Então, realmente desisto. Se dar por vencido é a maior das vitórias, às vezes! A vitória de me dar ao direito de priorizar assuntos que sempre me encantaram, a despeito do que se passa no mundo. Falar do universo criativo, das artes, da enogastronomia, sem qualquer constrangimento. Pois já enfatizei o que a circunstância coloca como prioridade sem sucesso...

Precisaremos de um bom tempo até a imunização de 70% da população, aqui no Brasil. E, como admitiu o próprio presidente estadunidense, recém empossado, Joe Baden, “chegaremos aos 500 mil mortos”, mesmo nos EUA, que iniciou a vacinação antes...

Como se vê, o que negamos toma fermento e cresce. O que acolhemos pode ser tratado. O que você nega, para se sentir “livre” do problema, enquanto o ajuda a crescer?




Assim se sentiu e escreveu, com exclusividade, para a CLA Magazine, Raquel de Andrade


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