Abraço

Depois de entrevistar cinco pessoas de universos completamente diferentes, sentia o cansaço bater, porque ainda pensava em matérias escritas, para a edição especial, também na composição da coluna local, além de projetos pontuais e ainda nas entrevistas previstas para a semana seguinte. Não fosse o bastante, haviam as questões da mudança. Em uns momentos, coisas burocráticas, ligações, papelada. Em outros, coisas mais práticas, mas sempre aquele pequeno transtorno que precede o novo endereço. Então, tinha de buscar um contraponto para relaxar as tensões e tanta carga. Porque o coração é entusiasmado, mas o organismo pede arrego.


Foto: Cla Ribeiro

Buscou seu happy hour, um momento só seu! E, nada melhor que fazer isso através dos lugares e sabores que tanto nos cativam. Esse último, inclusive, era a sua forma predileta de prestar sua homenagem ao bairro do qual se despediria em breve. Já que fora por ele tão bem acolhida, se sentia tão confortável por ali, onde era agradável passear pelas ruas, perceber suas atmosferas e revisitar seus sabores. Um dos quais ela mais gostava é daquele sanduíche delicioso, que conseguiu a proeza de fazê-la comer frango, coisa da qual nunca foi fã. Provou seu último sanduíche feliz, em casa, protegida de tudo e do constrangimento de ficar lambuzada de molho em público.

Também foi ao mercado querendo que

fosse a última vez, mas já sentindo falta da absoluta conveniência de ter abastecimento bem ao lado de casa. Ah, as saudades corriqueiras que precisamos ter, para criar espaço para a novidade. Realmente, elas só chegam quando aprendemos a dizer adeus. A iminência deste adeus para coisas corriqueiras a fazia pensar na transitoriedade de quase tudo na vida. No quanto circunstâncias e pessoas passam por nós e permanecem ao nosso lado apenas e tão somente com a finalidade de ressoar algo mais destacado naquele momento.

Até que, outra fase posterior há de tornar mais forte outro aspecto, característica, qualidade e interesse. Trazendo para nossas vidas pessoas relacionadas a eles, nas quais também ressoam esses assuntos, em maior ou menor grau! E entender isso é a base para desfazer o apego, esse sentimento derivado da posse e do medo, que tanto nos limita! À medida que nos livramos do apego, entendemos que jamais devemos sofrer quando as transições acontecem, sejam elas de bairro, trabalho, carreira, amigos ou pares românticos.

Hoje, com trinta e nove anos, tenho gostado muito de exercitar o desapego, mas admito que ainda preciso melhorar bastante. Toda despedida dá trabalho de providenciar o novo ou nos defronta com o vazio. E, vamos combinar, ele nos ensina muito, mas não somos fãs de lidar com os sentimentos de solidão, não pertencimento e desconexão. Temos natureza gregária e social. Há a tendência natural de buscar semelhantes, para todas as finalidades. É estranho sentir-se sozinha, algumas vezes.

Acredito que a maior parte das pessoas já lidou com isso em algum momento, mas preciso admitir que estou mais exposta à solidão pelo fato de ter mudado de cidade sozinha e não ter nela parentes ou amigos de longa data, daqueles a quem podemos recorrer irrestritamente. Por aqui, tudo é novo ou vazio. Há uma alternância entre excitação e densidade. A excitação quanto ao território ainda novo e tudo que preciso descobrir em através dele. E a densidade do vazio, dos sentimentos que estão dentro de nós, sem encontrar em quem ressoar. Sim, tenho pares de trabalho com quem amo trocar ideias e isso só acontece porque há pontos de convergência que nos aproximam em visão de mundo e interesses.

Sim, também tive a oportunidade de conversar sobre assuntos pessoais. Aliás, de um jeito que poucas vezes consegui fazer no sudeste. Só tenho a agradecer ao sul por ter me permitido trocas bonitas. Mas, se foram valiosas por quê também se mostram tão pontuais e distanciadas? Talvez, cada uma das partes esteja tentando se encontrar, se preencher de si mesma. Já que tudo que é alheio a nós próprios vira “corpo estranho” e merece espaço limitado dentro de nós.

Por via da dúvidas, tratei de providenciar os ingredientes para uma lasanha que aquece. Não a como há cerca de vinte anos. Sim, já faz tempo, muito tempo que preparei e degustei essa receita, que não encontro igual ou melhor. Coisa de família, sabor mediterrâneo, italiano, confortável, quentinho, aconchegante, um abraço empratado. E farei a minha lasanha neste fim de semana, quando a última atividade da minha outra lasanha de todos os dias acabar. Ela se chama trabalho. Gosto tanto de me comunicar ao escrever, entrevistar, compor reportagens, notas da coluna, textos, campanhas e até livros que me encomendam que, realmente, não sei como seria a minha vida se não pudesse praticar tudo isso.

Só sei que é maravilhoso “comer” minha lasanha profissional todos os dias! Qual é a lasanha metafórica de vocês?


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