Afeto

“Ele era gentil comigo e eu só o destratava. Ao chegar em casa, pensei: Caramba, que atitude sem sentido! O cara está me tratando bem e eu sendo estúpida com ele, sem mais nem porque” – com essa reflexão uma das humoristas mais famosas que o Brasil já conheceu percebia o erro e se propunha a mudar. Dercy Gonçalves se referia a Fausto Silva, durante reuniões que antecederam o quadro que ela ganhara do apresentador, no programa dominical mais longevo da TV brasileira, o Domingão do Faustão.

Ocorre que, diferente de Dercy, a maioria absoluta das estrelas e astros da indústria do entretenimento, além de tantos especialistas, que usufruíam do trabalho do Faustão jamais tiveram a inteligência, gratidão e hombridade de reconhecerem a tremenda contribuição que esse apresentador dava ao meio, no sentido de lançar ou promover nomes e carreiras. Ao invés disso, muitos preferiam achincalhar o apresentador, seu jeito de falar e interagir com as pessoas. Afinal, fazer o que fez Dercy, ainda mais em plena obra biográfica, também demanda humildade...



Outro apresentador que recolhia seu talento de artista múltiplo para, humilde e generosamente, atuar como apresentador imbuído em expor e promover o talento e trabalho das pessoas que recebia em seu programa também ganhou fama de estúpido, porque é mais cômodo se chocar com o efeito da pancada que investigar o motivo dela. Jô Soares não poupava quem puxava seu tapete, atropelava sua fala ou esvaziava a conversa. Retribuía com ironia, sarcasmo e ridicularização das mais constrangedoras.



Então, quando a cronista que vos fala lida com gente que interrompe seu discurso, fala por cima, estabelece conversa paralela, ignora sua presença e até o microfone que ela segura, para dar voz ao mal educado, respira fundo, para não reagir ao modo dos colegas consagrados e acabar assumindo a pecha que tanto prejudicara até mesmo os medalhões. Essa contenção é um movimento calculado. Se fosse dar vazão aos seus instintos usaria o mesmo microfone do qual o indivíduo sem limites usufrui, para provocar nele afundamento de crânio, especialmente quando está ao vivo...



Como se não fosse o bastante, lembra das vezes em que ouvira considerações sobre o fato óbvio dela “gostar” de reportagens para o vídeo. Afinal, uma sociedade que banaliza a publicidade, ao ponto de qualquer pessoa ter público, esquece que o jornalista constitui a categoria que profissionaliza o exercício de falar publicamente. Não por acaso, é habilitado a emprestar seu conhecimento a todos os demais profissionais interessados em dar publicidade às carreiras, por meio da assessoria de imprensa e de outros recursos, que derivam dos quatro anos de faculdade de Comunicação Social. E, no caso dela, contavam ainda com os dezessete anos de mercado, resultado de vinte e um anos dedicados a esses processos.

Mas, o tiro de misericórdia fica por conta do elogio mais pedante que qualquer pessoa pode fazer a um jornalista, escritor, roteirista, cronista, teatrólogo, dramaturgo ou qualquer outra categoria profissional que tenha a palavra como meio de vida: “Como você escreve bem!”. Essa era a gota d’água da desvalorização! Vejam, qualquer pessoa com o básico de instrução e sensibilidade pode escrever bem! Agora, enquadrar o exercício criativo da escrita em um processo industrial, no qual cumpre-se regras, prazos e que é realizado regularmente são outros quinhentos! E bem, mas bem mais distantes do padrão observado mesmo entre os que “escrevem bem”.



Por que falar disso publicamente? Primeiro, porque amo e quero continuar amando o meu trabalho, o que demanda não guardar mágoas quanto a nada que me feriu nele. E, depois de vinte e um anos exercendo esse ofício me sinto no direito de fazer esse desabafo. Segundo, porque imagino que pessoas que leem essa crônica enxergam o valor desse processo. Terceiro, porque quero também estimular que todos o coloquem em prática, se tornando transparentes quanto aos próprios afetos. Não vejo outro caminho para manter no coração o mesmo espaço nobre ou, pelo menos, original deles!

Assim se sentiu e escreveu, com exclusividade, para a Cla Magazine, Raquel de Andrade


*Raquel também apresenta o programa “Show Gastronômico” e parte do que relata aqui tem a ver com a experiência de apresentar a atração, que vai ao ar às 11h, de todos os domingos, através da fan page @Show Gastronômico.


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Essa crônica tem periodicidade semanal e é renovada às sextas-feiras

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