Cada macaco no seu galho

Acordei com a notícia de que os mais de mil brigadistas que atuavam no combate às queimadas amazônicas tiveram suas atividades suspensas, sob a alegação de que não há dinheiro para isto. Sim, o mesmo país que vive sucessivos escândalos de corrupção nos rende a situação inacreditável, imoral, incoerente, insustentável e chocante! Eu me senti obrigada a fazer alguma coisa. Então, tratei de correr, para garimpar especialistas capazes de repercutir o assunto de forma multidisciplinar.

Nas primeiras horas do expediente, consegui pessoas de conhecimentos complementares, para criar o painel que eu pretendia levar ao público no mesmo dia. Realizei toda a pesquisa prévia, que antecede a transmissão, organizada a sequência de quatro entrevistadas, que comporiam uma única live! Precisava, ainda, criar material de divulgação e fazer com que ele chegasse ao maior número de pessoas possível! Feito isso, me concentrei em dividir a pauta e o tempo. Quando há pessoas com algo realmente importante a dizer esta etapa é a mais desafiadora.


Foto: Cla Ribeiro

Lembrava das entrevistas nas quais meus colegas tiveram de tirar leite de pedra e me sentia afortunada! Comemorava a diversidade de aspectos relacionados a um assunto sério, além da profundidade de conhecimento atrelada à capacitação e experiência prática com o tema em questão. Como as entrevistadas tem boas doses destas qualidades o show de conhecimento, reflexão e convite à reação social sobre o absurdo repercutido no início da crônica foram garantidos!

O que o episódio também torna gritante é que o conhecimento jornalístico, para encontrar e escalar entrevistados, estabelecer pautas, fazer pesquisas prévias, harmonizar o aporte de cada participante, costurar a exposição do assunto e roteirizar o que será exibido deixa claro a importância de valorizar o jornalista profissional e estabelecer uma imensa diferença entre este e blogueiros, influenciadores e especialistas, que se sentem no direito de transcender a própria atividade, para fazer o que fazem jornalistas, como se visibilidade e qualidade do conteúdo publicado fossem fatores automáticos ou consequentes um do outro. Não são! Nunca serão!

O jornalismo se descontraiu, mudou de cara, sofreu a influência do boom controverso, que alimenta a geração quase que espontânea de tanta gente sem qualquer capacitação, que conquista público. Disto, já entendemos que entra o sorriso e sai a seriedade excessiva. A leveza é o novo pacote que embala as informações bem garimpadas! A descontração também pode ser aplicada sempre que possível. Até porque, ela não exclui a qualidade da informação! Mas, quando esta não existe não adianta tapear o público, porque ele se cansa e dispersa!


Foto: Cla Ribeiro

Então, se você não é jornalista e se aventurar a entrar neste terreno, venha com algo a dizer e na posição de entrevistado! Mas não se arvore a entrevistar quem quer que seja, por pensar que isso é “facinho”! Porque não é! Antes daquilo que o público vê há muitas etapas, inclusive uma que nem citei até agora porque é a mais complexa. Transformar o conhecimento e a experiência de uma ou mais pessoas em algo consonante com o assunto escolhido e, principalmente, com a abordagem que cada público espera dele é uma arte aprendida e aprimorada ao longo de uma vida! Depois de vinte e um anos de exercício ainda há muitas lições pelo caminho. Não se iluda achando que ele é uma trilha curta!


Assim se sentiu e escreveu, com exclusividade, para a CLA Magazine, Raquel de Andrade.


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