Coragem

Atualizado: Mai 30



Foto: Cla Ribeiro


Me dei conta que o sal acabara e lembrei daquele ditado que relaciona o consumo desse ingrediente às etapas longas. Lembrei também de quando meu ex marido perguntou: “Vamos comer um quilo de sal juntos?” , quando ainda éramos namorados. Naquela relação, a caminha partilhada trouxe consigo uma cefaleia tensional, que só experimentei ao lado do dito cujo. Vocês podem imaginar que a relação acabou e em poucos anos, por motivos óbvios...



Foto: Cla Ribeiro


O lado bom é entender que comi “outro quilo de sal”, mas comigo mesma! Me permiti mudar de cidade, de casa, de ares, conhecer e cativar pessoas queridas! Mais que isso, me permiti caminhar sozinha, com minhas forças e fraquezas, minhas luzes e sombras, minhas feridas abertas e minhas cicatrizes também. E como é bonita essa caminhada! Como é feliz comer um quilo de sal comigo mesma!

Temos por hábito criar e nos manter entre redes de proteção que estabelecem uma zona ultra confortável, mas atrofiadora também. É humano priorizar pessoas, bairros, atividades e cidades que nos são familiares, mesmo que não estejamos tão felizes dentro dessas estruturas. Mas, aprendemos a lidar com elas, que se tornam previsíveis, para o bem e para o mal! E essa previsibilidade cria a sensação de falsa segurança, conforto e “escolha” acertada, quando, na verdade, é produto da nossa inércia e medo.

Um exemplo disso é a minha cidade natal. Conhecida e festejada no mundo inteiro, a Cidade Maravilhosa faz jus ao apelido! É apaixonante! Tem um povo de grande coração e muito boa vontade! Uma natureza incrível, uma beleza estonteante, mas...É imensa, saturada, superlotada e todos os seus recursos precisam ser divididos entre 8 milhões de pessoas, entre as que vivem nela e nas cidades próximas, mas que trabalham na capital e só dormem entre Niterói e cidades da Baixada Fluminense.


Foto: Cla Ribeiro


Então, não é de se espantar que tanta gente concentrada em uma só cidade acabe gerando engarrafamentos homéricos, daqueles que demandam uma fatia importante do único recurso que nunca volta: o tempo. Sim, tamanha concentração de gente também cria um fenômeno interessante. Você pode ter uma Ferrari, mas não tem controle sobre o uso do seu próprio tempo, já que pelo menos duas horas do seu dia serão dedicadas ao ir e vir. E, que irônico, sua perda de tempo, consequentemente, de vida será idêntica a de quem usa um fusca. Até porque, a potência do seu carro de nada adiantará, considerando o fato de cada um põe seu “bloco” ou carro na rua, formando aquela fila de faróis ligados que só aceita a paciência como recurso.

Então, em cidades com as dimensões do RJ ou SP, onde engarrafamentos podem acontecer a qualquer momento, só quem tem gestão do próprio tempo e vida são os que dispõem de um helicóptero. Todos os demais são peças de uma engrenagem cansativa, desgastante e desmotivadora, considerando o efeito cumulativo do longo prazo. Essa foi a razão central pela qual me mudei, já que havia constatado isso há tempos e entreguei minha vida inteira a esse caos. Nunca tendo vivido em outro local, que não o Rio de Janeiro.

Então, me via imaginando como seria minha rotina em cada cidade para qual viajava. Até encontrar um lugar no qual chego a todo canto em 5 ou 10 minutos, é florido o ano inteiro, delicado, organizado e ainda me permite usar casacos que só conseguia quando viajava para o exterior! Sim, amo o frio e tudo que vem junto dele. Óbvio que ele, às vezes, não é fácil. Mas, cá estou e muito feliz!



Foto: Cla Ribeiro


Se tenho saudades da minha cidade de origem. Não, não tenho. Diria que tenho por ela um amor profundo, mas que precisa de distância para continuar existindo. Tenho saudades das pessoas que amo, dos amigos, dos afetos, enfim. Mas, eles estão impregnados em mim! Participaram da minha construção pessoal! Sempre farão parte da minha história e caminhada! Não há porque sofrer. Mas, já experimentei a dor da distância. Admito. Lembro de que a última vez em que vi meus pais e irmã juntos. Ali, na casa de nossos pais, um enorme nó na garganta se formou. Eu não consegui dizer o quanto era difícil me afastar deles naquele abraço de despedida. Foi dolorido e duro!

Retornei e, embargada, fiquei com aquele nó emocional, sem conseguir dizer ou mesmo elaborar tudo o que sentia diante daquela despedida. Ali tive meu único episódio de garganta inflamada em um ano, mesmo tendo passado por temperaturas negativas, bem antes disso. Para quem não sabe, esse problema de saúde reflete nossa dificuldade de verbalizar sentimentos, segundo correntes menos ortodoxas.


Foto: Cla Ribero


Superado o episódio, segui adiante e lhe encorajo a fazer o mesmo. Caminhar sozinho é a melhor forma de se redescobrir, porque só assim conseguimos estar juntos de nós próprios e de todos os nossos recursos! Por consequência, surgem parcerias bonitas, na caminha profissional, por exemplo. E, então, se vê que caminhar junto, em um sentido fraterno, em prol de uma ou mais causas, é sublime e pode nos completar de uma forma única!

Vá adiante em sua caminhada!

Assim se sentiu e escreveu, com exclusividade, para a Cla Magazine, Raquel de Andrade


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