Coro (nada)

Caricatura de si mesma


Entrecortava as horas no afã progressivamente maior! Inquieta, ansiosa por finalizar tarefas pendentes, mas indisposta, dispersa e faminta. A janta super saudável, bem temperada, equilibrada e em porção francesa, de tão controlada, caíra como um aperitivo, que mais funcionou para abrir o apetite que dar conta dele. Sem entender o motivo daquela agitação nervosa, passou pelo google e logo encontrou o delivery do fast food semanal e calmante. Era isso, abstinência de quarentena!



Feroz, ligou! A ligação nem chamava...Persistiu, não queria se dar por vencida! Em vão, mudou. Encontrou um fast food suplente para chamar, novamente, de seu. A rede inaugurada em sua cidade de origem também estava por perto. Mas, nem tanto. Ligou, chamou, chamou, caiu na velha caixa postal das linhas fixas. A modernidade dos aplicativos nos faz esquecer que elas existem. Mas, a fome era para ontem. Obscena, terrível, provocada...Por uma jantinha leve demais, somada aos longos dias sem seu querido podrão. Então, era também descartada a ideia de ver cardápios eletrônicos de tantos restaurantes, sob pena de enfartar de desejo.

Lembrou da dica de uma vizinha e ligou para um fast food da própria rua onde mora, na esperança de receber pelo delivery. A atendente super prestativa avisou que essa alternativa só poderia ser aproveitada se o pedido fosse feito pelo site. Contrariada, mas resignada também digitou o endereço começou a ver aquelas fotos pornográficas de tão lindas. Muito queijo derretido sobre as carnes, picles, molhos artesanais, pães idem! Tudo parecia delicioso, mas não havia qualquer dúvida. Queria aquela opção mais clássica, das que nunca poderão ser confundidas com modernidades descartáveis. Pão, carne, queijo e maionese, uma porção extra desse mesmo molho, batatas fritas e sua coca-cola zero, implacável para a enxaqueca.

Tudo parecia perfeito até a tecla de “faça o seu pedido” indicar erro e não funcionar nem por reza braba...Alternando irritação com riso nervoso ligou novamente para a lanchonete. Foi atendida pela mesma funcionária, que declarou estranheza, já que tantos outros foram feitos pelo site, naquele mesmo dia. Lei de Murph está aí...E, de tédio não se morre! Sucumbindo à tentação encomendou por telefone e decidiu que sairia de casa, de noite e em plena pandemia, rumo ao seu desejo.




Vestiu roupas íntimas que deixou de usar por resgate ancestral, recolocou o vestido modelo tubinho que preenche seu armário e figurino com poucas variações, cuidou de vestir o casaco e a sapatilha. Pegou sua bolsa e lá foi! Aqueles duzentos metros mais pareciam dois quilômetros. Nem uma viva alma passava, a rua era escura, não ouvia um ruído! Temores comuns às mulheres se multiplicavam em sua cabeça. Mil medos eram diluídos pela convicção que Deus cuida dos frágeis, já que assim se sentia naquele trajeto. Ao chegar, encontrou um curralzinho exclusivo para retirada de clientes, muito bem sinalizado e com um tremendo blindex resguardando a simpática atendente, que falara ao telefone. De pronto, foi identificada e atendida. Parecia sair dali com algum trofel, tamanha era a felicidade.

Saiu apressada e, como sempre, constatou que a volta era encurtada pelo alívio. Ao passo que a ida sempre é alongada pelas expectativas. Entrou no próprio prédio como quem precisa esconder o produto de um furto. Apressada, se via caminhando a passos largos, compassados e vigorosos. Entrou em casa, lavou as mãos, cumpriu o protocolo de higiene quanto ao que vem de fora. Mal tirou o casaco para começar aquele ritual efêmero e maravilhoso. Devorou tudo! Lembrou de um ex affair que fazia uma maionese idêntica! A esse ponto, os prazeres gustativos se misturavam aos das lembranças. Foi intenso! E fugaz! Mas, também foi irônico entender que algo tão trivial ganharia ares de aventura subversiva em tempos de pandemia.

Assim se sentiu e escreveu Raquel de Andrade, com exclusividade para Cla Magazine.


raquelmedandrade@gmail.com Raquel de Andrade: 41 99108-6401

Fotos: Cla Ribeiro

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