Em casa

Durante os últimos dias muitos boatos se confirmaram realidade, coisa que aumentou a movimentação para estocar comida, suprimentos, além de garantir a antecipação de tudo que poderia ficar para depois. Contas, questões burocráticas, serviços e produtos. Eu mesma me vi em uma maratona de quatro idas ao mercado, lavanderia, encomenda de cesta de orgânicos, entre outras questões da casa, além de contornar um incidente hidráulico, em um espaço de 24 horas. Tudo isso cansa e aflige, mas também nos convida a curtir a morada como se ela fosse o único lugar do mundo. Evidente que não é, mas deve ser o mais seguro, aconchegante e agradável para todos.



Sempre amei ficar em casa, mas sinto que a idade e a circunstância reforçam isso. Então, me vejo como aquelas senhorinhas que se distraem procurando utensílios, receitas e tudo que pode ser aplicado à felicidade doméstica! Chega a ser engraçado...O mais interessante é que percebo movimentos parecidos entre amigos, inclusive os da equipe da revista. Enfim, todos partilham o mesmo sentimento, ainda que em níveis e de formas diferentes. Há quem prefira reformar móveis, outros que escolhem colorir paredes e alguns promovem aquele desapego, com direito a doação de objetos já sem uso.

No mesmo embalo, o mercado se reinventa. Restaurantes criam pacotes e promoções exclusivas para o delivery, única forma de garantir receita mesmo diante de decretos mais restritivos. Empresas de mobiliário criam produtos que dão conta deste uso permanente da casa. Artistas plásticos criam mobiliário e objetos de decoração cheios de cor e utilidade, para contornar a retração e promover giro. Tudo e todos se rendem à certeza de que o lar sempre será rei, absoluto diante da contraindicação para a circulação de todos os demais lugares.

Quem tem a chance de se refugiar em ambientes mais naturais então parece se descolar de tudo e todos que o meio o urbano fez crer imprescindíveis. Tenho relato de algumas pessoas que curtem a situação de morar temporariamente em meio mais remoto ou até rural. Todos reportam um sentimento de muita liberdade, denunciado pela ausência de máscaras em fotos feitas nos quintais! Realmente não sei se lidaria bem com isso no médio e longo prazos, porque meu trabalho demanda a observação do meio, com destaque para o trabalho realizado por outras pessoas. Óbvio que a tecnologia supre boa parte disso de forma remota, mas muito do que publico tem a ver com a observação direta ao andar pelas ruas da cidade.

Outro dia, tomei um susto e me deparei com o mercado vizinho lacrado. Horas depois, soube que o gerente do estabelecimento falecera dentro do local. Fiquei chocada, triste e um tanto assustada também. Porque o desfecho tornou inseguro até mesmo o local de passagem obrigatória para a imensa maioria de pessoas. Afinal, não se vive sem comida! Em paralelo, as notícias de lotação absoluta de leitos e previsão de fim de medicamentos essenciais para tornar a entubação menos dolorida reforçam a ameaça, o que parece nos deixar sem margem até mesmo para a mínima circulação.

Diante disso e do número crescente de mortes, me pergunto até quando teremos de lidar com uma vacinação tão lenta como se fosse o máximo que o governo federal consegue propiciar, enquanto chega ao quarto ministro da saúde, sem sinais de que dará ao próximo a autonomia e as condições necessárias para que a situação seja finalmente administrada? Porque, sim, ela pode e deve ser! E a prova disso é o fato, por exemplo, de Joe Biden ter batido recorde de imunização em apenas 58 dias de governo! Isso, no país mais neoliberal do mundo, que também é mais populoso que o nosso!

Enfim, há coisas que só o Estado pode fazer e a imunização ampla é uma delas! Vontade política é o determinante. Quando ela não existe e ainda se vê descaso quanto a tudo o que acontece nos resta a necessidade de fazer da casa o melhor lugar do mundo, já que é nele que teremos de ficar. E, por muito tempo! Chega a parecer piada, mas não é! Então, eu realmente desejo que você fique em casa e aprenda a gostar disso.


Assim se sentiu e escreveu, com exclusividade, para a CLA Magazine, Raquel de Andrade


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