Empatia

“Quando me casei abdiquei da minha maior alegria, que era dançar. Seu avô não dançava”, lamentara a avó materna e quase centenária. “Quem casa não pensa, quem pensa não casa”, ponderara a avó paterna, além de madrinha. “Minha aluna me confidenciou tal coisa”, soltara a mãe. Todos os relatos lhe foram ditos a partir dos cinco anos de idade. Era incrível como praticamente todo mundo lhe contava a vida, do nada!

Perdeu a conta de quantas pessoas simplesmente olhavam para ela, no metrô, ônibus, praça ou parque e começavam a falar sobre suas vidas, sem parar. Chegou ao ponto de ir a uma consulta médica e perceber que o clínico geral começou a pontuar todos os seus problemas, compromissos familiares e sociais, em tom de desabafo.


Fotografia: Cla Ribeiro


Antes disso, viajando com o então marido, pararam para pedir informação e acabaram escutando um longo relato em espanhol. Já na cidade na qual viviam, foram jantar em um restaurante luxuoso e o maitre desandou a falar, entabulando uma conversa quase que paralela, além de bastante inconveniente. De início, enciumado, incomodado e intrigado o então par logo disse: “Enxerguei todo o fenômeno. As pessoas se sentem tão acolhidas por você que saem falando das próprias vidas, sem qualquer autocensura”. Em pouco tempo, ele também falou, pragmático: “Não estamos ganhando nada com isso! Você precisa se capacitar, para atuar como terapeuta!”.E falava isso a sério, sem qualquer vestígio de ironia!

Enquanto isso, ela continuava dando Graças a Deus por lidar com relatos frequentes, já que eles indicavam que jamais deveria fugir da própria vocação, formação e atividade. Ouvir é parte fundamental de ser Jornalista

Esse ofício que está entre os que os exercem, mesmo quando não atuam de maneira formal, estão de férias ou tratando da saúde. Se isso drena? Sim, um pouco, mas também rende muita coisa boa! Lembro da expressão de gratidão das pessoas por terem sido observadas, ouvidas sem qualquer julgamento e compreendidas em suas dores. Lembro do quanto isso me aproximou delas, mesmo que por instantes. Penso que, talvez – nem mesmo seus pais, maridos, esposas ou filhos tenham experimentado esse tipo de aproximação, tão sublime, fraterna e profunda.

Venho para o presente, anos depois de todos esses eventos. Chego para entrevistar uma liderança e a ouço falar do próprio neto, com crueza, compaixão, zelo do mais absoluto, amor, enfim. E o melhor, de forma completamente espontânea! Ali, enquanto os equipamentos eram montados para o registro de imagem e som. No dia seguinte, sou convidada a comparecer ao set de outra gravação sem qualquer função delineada, já que havia feito e entregado os roteiros que me foram encomendados para a mesma, bem antes da atração ser registrada. Intrigada, entro no carro da equipe e logo perguntou ao diretor: “Como posso ajudar hoje?”. “Sua função será a de ouvir. Vá e ouça, perceba o ambiente e quem é quem dentro dele”.


Fotografia : Cla Ribeiro


Como a necessidade de autoexpressão das pessoas é enorme não só ouvi como também partilhei o balanço das informações e perfis com os quais teríamos de lidar, ao sairmos. Dividíamos algumas impressões e apostas. Independente do desfecho delas, seguia convicta de que sempre vale a pena escutar, perguntar, manifestar interesse genuíno pela realidade que o outro tem a lhe mostrar.

E você, a quem você tem oferecido a sua atenção?

Assim se sentiu e escreveu, com exclusividade, para Cla Magazine, Raquel de Andrade


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