Entusiasmo

Enquanto leem as linhas dessa crônica há grandes chances da neve tomar a cidade na qual vivo. Esse fenômeno natural fora registrado pela última vez, em 1975, por aqui. É sabido que a capital paranaense é fria, gelada, mas a neve virou excepcionalidade. Do mesmo modo que também não é constante quem lide com o texto se sentir confortável para exprimir o que sente, através de imagens. Eu fiz isso, mas não tive coragem de fotografar meu próprio acervo e realizar a exposição programada e anunciada para começar no último dia 15.


O tempo - Cla Ribeiro

Essa falta me rendeu o aprendizado ao melhor estilo do ditado popular que exclama “A língua é chicote do rabo!”. Isso porque cansei de xingar mentalmente diversas pessoas para quem prestei assessoria de imprensa, quando esses estouravam prazos, que já haviam sido noticiados pela imprensa. Óbvio que o impacto da mesma situação diante de uma iniciativa independente como a é o caso da exposição “Corpo e Alma” é bem menor do que trâmites de Estado, pertinentes ao big business ou mesmo às pessoas que vivem da arte efetivamente. Mesmo assim, peço desculpas caso você, leitor, tenha buscado pela expo sem encontrá-la.

Feito isso, recupero a dignidade devida a uma quase quarentona e retomo a reflexão em torno da autossabotagem. A bicha é tão tinhosa que não me impediu de correr com a produção de obras complementares, muito menos na execução da curadoria ou escolha definitiva de quais peças serão expostas. Mas, reinando como uma monarca, embargou o registro fotográfico das mais de 50 obras, como que quisesse dizer para mim: “Olha, Raquel, quem manda em você sou eu!”. De um jeito que acordo e durmo com essa pendência, sem conseguir saná-la....



Mais uma vez - Cla Ribeiro

Hoje, por exemplo, temi a neve por cair, priorizei a compra de itens no supermercado, a encomenda da cesta orgânica da qual virei adepta, a feitura do feijão quentinho, a organização das roupas sujas antes de lavar, a troca de ideias sobre questões pessoais e, pasmem, até mesmo a tarefa doméstica da qual mais fujo: a arrumação dos armários da cozinha....Cristo do céu! Eu, trepada em uma escada, um festival de saquinhos quase caindo, entre o esforço de identificar o que ficou em desuso por tanto tempo ao ponto de ganhar o aspecto de uma simpatia, pequeno despacho ou coisa que valha, me assustando, e me fazendo forçar a vista para identificar a tralha, para, invariavelmente, jogá-la fora, com a ira de quem detesta acumulação, mas ainda a constata, mesmo que em pequenas quantidades!

Sou minimalista e acredito que precisamos de pouco para viver com plenitude e conforto. Detesto perceber itens repetidos em uma dispensa que atende a uma só pessoa, como é o caso da minha, não suporto a ideia de peças de roupas para além das que realmente uso, me proíbo de comprar mais pares de sapato e, na verdade, ainda reconheço que tenho de me livrar um ou outro que tornaram-se pesos mortos, ocupando espaço em meu armário, já que não os uso.


Quebrando o padrão - Cla Ribeiro

Mas, o que isso tem a ver com o atraso da exposição, o “Dia de Maria” narrado acima e essa crônica? Penso que todos vivemos um ciclo de autossabotagem, fuga, rendição e mudança. Todos nós, em maior ou menor grau, lidamos com o mesmo ciclo, ainda que cada qual busque sua própria forma de escape ou rota de fuga. E aí, a coisa começa a ganhar pertinência por aqui. Eu não sei quais novos movimentos você pode empreender em sua vida, para torná-la mais cheia de significado. Mas, tenho certeza que há algo novo capaz de aumentar o brilho do seu olhar, diminuir seu cansaço e aumentar a sua felicidade.

Outro dia, uma amiga de longa data partilhou o sentimento de desânimo, através das redes sociais. De imediato, a estimulei a buscar esse ponto, esse assunto, projeto, novidade ou movimento diferente, capaz de agregar à vida mais entusiasmo. Gosto dessa palavra, que tomo como a divindade manifestada em cada um de nós! E, o que pode ser divino nesse mundo tão materialista, tão raso?




Isso é subjetivo, pessoal, intransferível, segundo cada história de vida, visão de mundo, expectativas e escala de valores morais de cada indivíduo. Então, finalizo a crônica prometendo encarar o “boi pelo chife”, tomar coragem de expor meu amado acervo tão logo possível e lhe convidando a também pensar: o que leva o entusiasmo para os seus dias?



Assim se sentiu e escreveu, com exclusividade, para CLA Magazine, Raquel de Andrade.


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