Essencial

Sem meias palavras, contarei a vocês um segredo. Toda semana, começo essa crônica sem fazer ideia que assunto abordar, que rumo dar ao texto, sobre o que falar, como dizer e quais ideias priorizar. Justamente por isso, a crônica é a tarefa mais postergada de todas e sempre é escrita aos 47 do segundo tempo ou em plena noite de quinta-feira, depois que janto. Acho que esse é um resgate da adrenalina que subia no início da carreira, quando meu trabalho era submetido a prazos bem mais rigorosos e eu só lembrava de um professor dizendo: “Pode ser o melhor texto da sua vida, mas ele não valerá nada se for entregue cinco minutos depois”.


Alerta - Cla Ribeiro

Essa orientação forjou a urgência e, depois, a pressão. Quando uma não reina a outra incide. E, ao longo de toda a carreira, quem escreve profissionalmente estará submetido a uma delas e, em última análise, às duas. São nossos chefes imediatos, algozes e amigos também. Essa relação é complexa, mas primordial para manter o sentido de tudo que é publicado, especialmente com a finalidade de informar. Claro que a medida que o tempo passa, é natural conquistar a possibilidade de falar sobre assuntos menos descartáveis, que demandam um outro tratamento, mais analítico e menos temporal.

Com esse avanço, percebemos que quase tudo está dentro de nós, em nossa própria humanidade, em nossos sentimentos, nos sentimentos que somos capazes de enxergar entre as pessoas que amamos, entre as causas que se fazem coletivas por serem relevantes, ou sentidas por muitos! É então que escrever profissionalmente ganha um sentido para além da própria vida ou do próprio interesse imediato! É nesse momento que todos os sacrifícios são justificados. Toda a correria, toda a pressão, todo pouco prazo e até mesmo toda a fragilidade, limitação e finitude do que fazemos também é relativizada e se torna estranhamente forte!


Acesso? - Cla Ribeiro

Se, no ínicio da carreira, falar de como uma medida econômica da gestão de fulano impactou a indústria de forma x, y ou z se tornou perecível e “só” teve relevância em um determinado tempo, hoje, a possibilidade de falar sobre sentimentos como empatia, coragem, afeto ou mesmo de premissas como a sustentabilidade e a busca por um estilo de vida minimalista ganha uma dimensão atemporal ou, no mínimo, bastante conveniente dado o esgotamento dos recursos naturais ou o uso demasiado deles, em medida muito maior que a natureza pode oferecer, segundo depoimento de todos os especialistas cujo conhecimento se relaciona com essa temática, só para citar um exemplo.

A água está escasseada e tende a alcançar o estágio de seca, dentro de poucos meses, mesmo no próspero Paraná, local apontado como maio produtor de alimentos do mundo, estandarte da segurança alimentar, não só para o Brasil, mas para o planeta. Por que falar disso, já que discorro sobre questões supostamente atemporais? Por que destacar algo externo quando enfatizei a importância dos sentimentos ou do que é interno no parágrafo anterior? Para mostrar que só podemos mesmo nos valer do que está dentro, daquilo que é intrínseco a cada um de nós, da nossa própria subjetividade! Já que, afinal, até mesmo o básico pertinente ao externo, a agricultura que sustenta o corpo está prestes a ser drasticamente afetada!

De agora em diante, as questões elaboradas por Arnaldo Antunes, e disseminadas pelos Titãs, há décadas atrás se tornam mandatórias! “Você tem fome de quê? Você tem sede de quê?”. Se até o básico terá de ser revisto, que sentido pode haver em manter o excesso, o acúmulo, o consumismo, a retenção e o descarte em nossas vidas?


Good News - Cla Ribeiro

Acho que a humanidade será obrigada a nutrir o corpo e alma de forma essencial e inteligente. O primeiro, com alimentos menos processados, mais naturais, em refeições feitas para matar a fome, de modo que comamos para viver e não vivamos para comer! Sem escusas para transferir para a mesa o saciar de outros prazeres que nada tem a ver com ela. Então, que a ansiedade seja tratada pela Psicologia, e não pelo excesso de carboidratos e doces. E, que em outra ponta, a alma ganhe expansão, a identidade seja lapidada, descoberta, cultivada, tratada por meio do autoconhecimento, da arte, da interação, das relações e dos laços de valor! Isso tudo nos faz cruzar o isolamento e caminhar rumo ao significado, à plenitude e ao sentido de resistir, buscar adaptação e viver!

Por falar nisso, finalmente fotografei o meu acervo e ele estará no ar dentro de poucos dias. Ele resume a exposição “Corpo e Alma”, que representa parte do meu universo subjetivo. Ao menos aquela fatia que as palavras não deram conta de elaborar e explicar. Ali, há percepções sobre o que é material, visível, mas também sobre o que é invisível aos olhos e relevante ao coração. Realmente espero que se aqueçam e gostem!

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