Filhos

Pedi o Uber, mas a bateria do celular despencou, desligando o aparelho antes mesmo que eu fosse notificada da placa do carro que me levaria para casa. Diante disso e da falta de um carregador na enorme bolsa que estava comigo sobram as risadas pela ironia da situação e a certeza de que era melhor me apressar rumo a casa, antes que anoitecesse. O fim de tarde embalou minha marcha. Nela, revia a cidade que tanto amo e escolhi para viver, refletida nas construções, pessoas e seus hábitos. Eles parecem pedir licença para tirar a máscara, sentam-se entre mesas de bares e tomam bebidas. Coisa que constatei ao ver pessoas pelo caminho, com crítica, esquecendo que - minutos antes – havia feito algo parecido, em um café, próximo dali.


Foto: Cla Ribeiro

Ah, como somos duros com os demais! E como somos indulgentes quando encaramos nossos erros! Quanta fragilidade a natureza de olhar para fora e fazer juízos de valor sobre o externo e sobre as pessoas revela em nós mesmos! Embora ele nos convide ao autoaprimoramento, por tabela, traz - em si – uma fuga da canalização ou concentração de energia para o único indivíduo que podemos transformar. Ele está diante do espelho, nunca além disso! Mesmo assim, insistimos em falar do mundo, do outro, do externo. Porque é mais cômodo, fácil e ainda nos dá a ilusão de superioridade.

Essa reflexão me confronta de forma muito séria, já que ser jornalista me obriga a contemplar, olhar para fora, considerar o mundo e falar dele.


Foto: Cla Ribeiro

Entendo que esse exercício foi impulsionado pela vontade de construir um mundo melhor, ponderado pela consciência de que isso acontece a partir de cada um de nós e continuado pela certeza de que entre esses dois movimentos é preciso desenvolver uma visão amorosa sobre tudo e todos. Isso porque só nos damos ao trabalho de melhorar quando temos a crença de que podemos evoluir!

Por tabela, conquistamos também a chance de olhar o tudo e todos com a mesma esperança, um tanto de compreensão, além do muito de torcida para tudo que já admiramos, consideramos agregador, gentil, generoso, construtivo e merecedor de espaço, por se prestar às finalidades coletivas, não apenas individuais. Refinar o olhar para perceber cada vez mais disso é um processo muito bonito! No início da carreira, por exemplo, só tive sensibilidade para enxergar a contribuição numérica ou econômica que as indústrias representam para a sociedade. Não por acaso, prestei assessoria de imprensa para a Federação que as congrega, em minha cidade de origem.


Foto: Cla Ribeiro

Com o tempo, perceber que o coletivo só melhora a partir da transformação individual me levou a atender pequenas empresas, além de profissionais autônomos muito atuantes e vocacionados, imbuídos de suas respectivas missões de vida. Adiante, perceber que as artes também são expurgos do que precisamos tratar me conectou ao meio artístico, para qual dei suporte. E como ele transforma quem se aproxima!

Não se passa por esse universo criativo impunimente! Quem tem contato estreito acaba mergulhando em si próprio, vasculhando a própria alma, enxergando as próprias dores, os nós arrastados vida afora e entendendo que o nossos processos de amadurecimento e evolução precisam de uma via e tratamento estritamente subjetivo, não racionalizado e que só encontra seu caminho por meio da própria arte, daquela que fazemos, que criamos, não apenas da que contemplamos de longe.

Desta certeza, veio a permissão e busca por um texto menos jornalístico, mais autoral, autorreferente, o que se percebe claramente na crônica e também na coluna que assino. Enfim, eles são os filhos que tenho e entrego para mundo, junto do meu peludo cão, o Lupicínio Rodrigues. Essa inusitada família que concebo se desdobra e ganha novos membros calados, mas contundentes naquilo que exprimem.


Corpo e Alma - Web Gallery

São as aquarelas. Elas entraram em minha vida durante um ano emocionalmente sabático, no qual só me permiti dizer tudo o que sentia por meio das cores, já que não havia palavras capazes de elaborar aquela momento. Agora, com o isolamento social, se avolumaram, ganharam diversas formas e preenchem a galeria virtual que criamos aqui, na CLA Magazine, para mostrar que a vida assume muitas formas e que todas elas são sagradas e merecedoras de partilha.

Todas as minhas cores vão para vocês na exposição “Corpo e Alma”




Assim se sentiu e escreveu, com exclusividade, para a CLA Magazine, Raquel de Andrade


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