Humanidade

Confortou o estômago com a pizza que lhe aguardava na geladeira. Porque, naquele momento, não tinha a disposição feliz de cozinhar. Já estava cansada pelas 15 horas seguidas de trabalho. Já passava das 23h. Trabalhara desde às 8h. E o expediente chegava ao seu ápice, demandando a execução da tarefa mais criativa. Nem sabia por onde começar. Só desejava dormir, pois o sono apresentava o seu boleto.

E a conta do cansaço não era a única. Ela se misturava mentalmente com os boletos literais. Todas aquelas contas ordinárias que, quando pagas, causam na maioria das pessoas uma sensação de alívio e tranquilidade, que pode ser comparada ao estado perfeitamente limpo e arrumado de uma casa depois da faxina. Esses pequenos prazeres ordinários foram promovidos desde o início do isolamento social.



Foto: Cla Ribeiro


Não por acaso, ouvia coisas do gênero, a partir dos perfis mais improváveis. Recentemente, lhe disseram de uma súbita mania de limpeza que começou com o isolamento. Não era uma senhora bonachona a dizer isso, mas sim um homem jovem. De uma senhora conhecida, o hábito recém adquirido e confesso era o de arrumar e rearrumar as gavetas do armário pessoal, além do enxoval completo de cama, mesa e banho da casa. Cada qual teve seu nível de “aprimoramento doméstico” como brinde pelos quase três meses de internamento domiciliar forçado.

Ele destronou joias, carros, aviões e promoveu roupas confortáveis, lares organizados, e refeições saborosas, para mostrar que a casa e a simplicidade se combinam, ao compor o centro de absolutamente tudo! Do despertar ao momento do sono, do trabalho ao instante de folga, dos pequenos prazeres em torno da mesa, lá está a estação onde se trabalha, a mesa em torno da qual são feitas as refeições, o sofá onde se repousa depois delas, por instantes de descanso. A cama que nos guarda o sono. A cozinha promovida a laboratório criativo, de onde saem receitas inovadoras ou o bolo tradicional e delicioso.


Foto: Cla Ribeiro


Não há ninguém que não tenha revisto o papel do lar, através dos três últimos meses. E não falo só do lar físico, mas também do maior e mais perene lar que todos hão de ter na vida. Me refiro, principalmente, ao lar emocional, ao esteio que nos sustenta diante das restrições, ameaças e adversidades geradas pela pandemia. É fato que cultivar emoções positivas e uma perspectiva otimista não só ajuda a lidar melhor com toda a situação como também permite que a humanidade atravesse a realidade assustadora das mortes, que crescem a cada dia, mantendo a esperança de reestabelecer a normalidade ou, pelo menos, poder abraçar novamente os próprios pais, irmãos, amigos e pessoas queridas.

Agora, os abraços que podemos dar são: “Você está bem?”, “Coma direito!”, “Se agasalhe”, “Durma bem”. O zelo, o se importar com o outro e a atitude de mobilizar esforços em prol dele são os únicos “abraços” cabíveis para o momento. Ele é duro, mas também faz nascer coisas belas. Que o digam projetos realizados e expandidos, como o Mesa Solidária, que une forças públicas e privadas, para alimentar até mil e quinhentas pessoas por dia, na capital paranaense. Óbvio que essa não é a única forma de se colocar socialmente útil. O simples fato de usar a máscara sempre é um gesto de amor ao próximo, não apenas de resguardo de sua própria integridade.


Foto: Cla Ribeiro


Mas, tenha em mente que isso não é tudo e nem toda fome é de alimento. Saiba que assim como você pode sentir falta de conversar, se confraternizar e socializar a maior parte das pessoas também lida com isso. Então, converse, procure saber - não da vida alheia, mas do que as pessoas com quem você lida ou se importa sentem! Que angústias, tristezas, vazios, descobertas e alegrias elas podem partilhar! Não sofra ou se alegre sozinho, compartilhe, se doe, converse, saia de si. Transforme a sua ilha emocional em um arquipélago cheio de pontes, estenda a sua humanidade ao outro!

Assim se sentiu e escreveu, com exclusividade, para a Cla Magazine, Raquel de Andrade


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