Humano

“Agora, vou aumentar a profundidade da perfuração para criar o estímulo necessário para esta região da pele”, explicava a especialista enquanto microagulhava o meu rosto, com um equipamento motorizado. Como sofrimento pouco é bobagem, inventei de me submeter ao um tal skin booster na sequência. Além da ardência provocada pela vitamina C, havia uma dor forte, como se o organismo estivesse sendo atingido no nível do osso. Depois disso, saí da clínica com certo alívio, para me surpreender com o rosto completamente dormente apenas duas horas mais tarde, em sinal claro de que a anestesia aplicada antes tivera efeito retardado.



E isso não foi nada perto de nível de sacrifício que as mulheres se habituaram a fazer....Muitas ainda argumentam que fazem isso por “si mesmas”, para o próprio deleite pessoal. Mas, reconheçamos, é evidente que a disposição para tanto sacrifício em prol da imagem seria muito menor se o padrão de beleza vigente e socialmente valorizado, para mulheres, fosse mais despojado, vide a paz com que muitos homens convivem com as suas barrigas, seus fios brancos, por muito considerados até charmosos.

Mesmo depois de comemorar os fios brancos assumidos pela atriz Samara Felipo, temos muito o que caminhar para conquistar uma percepção feminina mais humanizada. Ainda nos sujeitamos a imagens construídas às custas de muito sacrifício e dor, atrás de uma chancela social, que sempre valoriza beleza e juventude em detrimento de essência, inteligência, autenticidade e paz diante do próprio envelhecimento e finitude. Por mais que se diga o contrário, mulheres que ousam romper com este código se tornam invisíveis. E homens que se aproximam e assumem essas mulheres se tornam alvo de humilhação. Impossível esquecer os ataques sofridos por Macron e sua esposa mais experiente.

E a moral que fica depois do episódio que constrangeu qualquer pessoa minimamente delicada é a seguinte: de nada adiante ser inteligente, culta, trabalhadora, trabalhadeira, ter boa índole e conduta, porque o simples passar do tempo coloca a mulher em um limbo perverso, no qual ela sequer tem direito de ter um companheiro mais jovem sem virar motivo de piada universal... Quando isso não acontece, sempre haverá um constrangimento pairando no ar diante de um casal formado por homem mais jovem e mulher mais velha. Especialmente quando esta diferença se tornar explícita. Contudo, há uma aceitação imediata quando o homem é o mais velho do par. E ninguém faz piada disto. Vide o casal

Michel e Marcela Temer, só para citar um exemplo.


A pressão social é tanta que até a humorista Tatá Werneck confessou seu desconforto e resistência para tomar coragem e assumir o romance com seu par, anos mais jovem que ela. Se uma pessoa que pertence a um meio muito mais livre sofre para viver um modelo de relação que inverte o padrão não é preciso muita ginástica para alcançar o tamanho da barreira e peso que meros mortais tem de suportar quando resolvem fazer algo parecido.

Espero estar viva para experimentar um mundo no qual uma mulher seja validada por sua história e contribuição social, assim como são os homens. E já me sentiria feliz se todos nós pensássemos sobre o assunto com menos preconceito. Pois podemos e devemos nos libertar de tudo aquilo que nos limita por mera convenção.


Assim se sentiu e escreveu, com exclusividade, para a CLA Magazine, Raquel de Andrade.



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