Independência ou morte?

Viajaria horas depois, o que me fez antecipar esta crônica, assim como o exercício reflexivo que se desenrola através dela. Como já mencionei por aqui, nunca faço ideia de como a crônica vai começar, tampouco terminar, o que aproxima a escrita desse texto da psicografia ou quase isso. Piadas à parte, há, sim, algum fenômeno que se desenrola enquanto se escreve. Outro dia, estava fora da minha base, era fim de semana, precisei usar computador que não é meu e acho que a circunstância até contribuiu para dois textos que me agradaram bastante. Um foi dedicado a homenagear um colega experiente. Só deixei o retrospecto factual se fundir às emoções, para alcançar a finalidade. Outro, era a própria crônica. Como sempre, um passeio costurado entre minhas reflexões pessoais e o que ocorre no mundo, para promover o pensamento além da notícia que envelhece. Hoje, penso em falar sobre morte. A morte de um conceito frágil e polêmico. A morte da independência.


Foto: Cla Ribeiro

Nossa constituição social nos leva a nutrir a ilusão de que a independência existe, desde sempre. Mais ainda em um país que tem na própria bandeira a frase “Independência ou morte”! Creio que, assim como eu, muitos de vocês foram estimulados a desenvolver uma “vida independente”, o que agrega muita estima tanto a quem instrui quanto a quem é instruído para esta finalidade. Acontece que simplesmente não conheço quem tenha feito qualquer coisa relevante sozinho ou sozinha! No geral, pobres, remediados e ricos perduram seus estilos de vida através de associações. Então, do puxadinho à mansão sempre há um consenso de cooperação entre duas ou mais pessoas deflagrando a expansão, para o novo lar e patrimônio. Poxa, mas e as pessoas que permanecem solteiras, mas prosperam e acumulam patrimônio sozinhas?

Veja com atenção, na maior parte dos casos, mesmo esses perfis optam por experimentar viagens, em um estilo de vida bastante dinâmico e até nômade, já que se estabelecer perde o sentido, uma vez que manter estruturas sem uso se torna pouco inteligente. Então, não raras são as situações nas quais o “avulso” ou “avulsa” próspera mantém seus imóveis alugados ou até os vende porque a liquidez reforça a liberdade, enquanto expõe a fragilidade do que se convencionou como independência, já que entre fases mais dinâmicas torna-se mais cômodo viver com familiares ou alugar um imóvel compacto e até mobiliado.

E estes dois desdobramentos que exemplifiquei no parágrafo acima mostram que tanto as pessoas que perduram ou promovem o estilo de vida, através de um casamento, união estável ou convivência, quanto as pessoas que moram sozinhas ou tornam à casa dos pais são interdependentes. Os primeiros por motivos óbvios, os segundos por dependerem do aval de uma imobiliária e proprietário, com os quais mantém relação estritamente comercial e aos quais terão de acatar quando, à revelia, tiverem de entregar o imóvel e se mudar, novamente, por vezes, contra a própria vontade. Os últimos idem, por também terem de conviver com hábitos, rotinas e familiares com os quais nem sempre concordam ou mantém total harmonia.

Quando expandimos esta análise para outros aspectos da vida, então, a independência se esfacela...Todos dependemos de empregadores, chefes, clientes, demandas, mercado, prestadores de serviços, colaboradores, funcionários e/ou sócios. Nenhum alfinete dentre a nossa própria produção é capaz de nos render um único real de forma automática! Nosso trabalho pode ser primoroso, mas de nada vale se não há demanda em torno dele! Somos absolutamente frágeis, dependentes dos demais e das relações de troca que estabelecemos com o mundo!


Foto: Cla Ribeiro

Se levarmos a reflexão para o campo emocional acho que precisaríamos de algumas crônicas e não apenas de uma para fechar esta análise, o que me faz resumir este aspecto à lembrança de que a espécie humana é gregária e sociável. Por um viés psicológico e até psicanalítico, entende-se a vida como a significação do sujeito através das relações que ele estabelece com os demais. Então, definitivamente, por todos os ângulos, vejo a independência como absoluta ilusão! Algo presunçoso, que nos leva a equívocos de uma vida inteira, sem a clareza e admissão de nossa fragilidade, por isso mesmo distantes da possibilidade de superar ou lidar com ela cultivando nossa potência. Talvez, a força esteja na autonomia, aí, sim, viável, possível e salutar.

Como você exerce a sua?



Assim se sentiu e escreveu, com exclusividade para a CLA Magazine, Raquel de Andrade.


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