Intangível

Trancafiada em casa desde domingo, mal senti a semana passar feito um cometa. Precisava de um agasalho extra e lá fui eu, novamente, à Meca do consumo. Ao chegar no Shopping, me deparei com poucas pessoas na mesma busca, pois o frio já deu o ar de sua graça, na capital paranaense. O provador bloqueado por medidas sanitárias promove o olhômetro a aferidor de modelagem compatível. Afinal, se bastasse o número da etiqueta não existiriam provadores. Mas eles existem. E, depois de três meses isolada e completamente sedentária a forma física não está lá aquela Brastemp...Por isso mesmo, estou imbuída do propósito de iniciar a dieta.


Foto: Cla Ribeiro


Em consulta remota com a nutricionista, ainda no início da semana, soube que a restrição vai ser severa. Nada de açúcar, arroz e nem pensar no meu querido pão de forma. Mas, se é por uma boa causa acato a disciplina! Além de tomar um suplemento alimentar bem poderoso, vou me enquadrar em atividade física desenvolvida pela clínica que me atende e já espero meu primeiro momento de folga para ler as cento e quarenta páginas de receitas alternativas e saudáveis que vão me acompanhar no próximo mês.


Foto: Cla Ribeiro


Combinei com a Priscila Gutierrez, nutricionista que me atende, que usarei alguns poucos dias para zerar a geladeira e dispensa da casa de todos os alimentos vetados pelo programa de reeducação alimentar. Além de ganhar tempo para manipular a pílula super customizada e prescrita por ela, segundo as minhas necessidades e objetivos, farei o que meu discurso sempre defendeu. Embora eu viva no lugar considerado o maior produtor de alimentos do mundo, entendo que descartar comida é execrável, uma vez que tantas pessoas lidam com a fome, mundo afora, para a mais absoluta vergonha de toda a sociedade!


Foto: Cla Ribeiro


Temos algumas iniciativas que chamam a atenção, no sentido de fazer um uso inteligente do alimento, como é o caso da Gastromotiva, onde alimentos considerados fora do padrão comercial e rejeitados por isso ganham nova vida, à luz da criatividade e boa vontade de chefs renomados, no Brasil e no mundo, como é o caso Massimo Bottura, um dos líderes responsáveis por viabilizar a iniciativa. Poderia elencar outros tantos nomes que emprestaram o trabalho ao propósito nobre. Mas, minha ideia, aqui, é trazer a questão para cada um de nós, que podemos e devemos fazer alguma coisa um prol de diminuir o número de pessoas que padecem dessa necessidade.


Foto: Cla Ribeiro


Por exemplo, na capital paranaense, há o Mesa Solidária, um serviço voltado à alimentação de mil e quinhentas pessoas, por dia, graças a sinergia entre vinte e cinco instituições e o poder público municipal. Se há tantas pessoas que já trabalham pela causa por que você deveria se engajar também? Entendo que o desconforto diante da dor e desamparo de quem precisa desse socorro deve ser mais que suficiente para que todos façamos a nossa parte. Então, mapear empresas nas quais há sobras de alimento, reportar isso à gestão do Mesa Solidária, se habilitar a trabalhar como voluntário ou, “simplesmente” divulgar a iniciativa, mesmo entre os seus familiares, amigos e conhecidos é ampliar essa corrente.


Foto: Cla Ribeiro


Há outro aspecto “maior”, que planta no mundo a semente de uma sociedade mais sustentável, no sentido amplo que esse conceito tem. Ao levarmos uma iniciativa como o Mesa Solidária para a pauta social, para a conversa corriqueira, repensamos nosso estilo de vida, para muito além do consumo de alimentos! Passamos a refletir sobre o tanto de excesso que usamos para tapar nossos buracos emocionais. Por qual motivo consumimos tantos pares de sapatos quando só temos dois pés? Qual é o sentido de investir tanto em eletroeletrônicos, já que eles ficam defasados em questão de meses? Será que casas tão grandes são mesmo imprescindíveis para o nosso bem-estar?


Foto: Cla Ribeiro


Que tal pensar no significado que engajamentos cooperativos podem agregar à vida? Todas as pessoas que realizam trabalhos sociais, beneficentes ou mesmo coletivos que conheço ou com as quais tive oportunidade de conversar relatam um nível de amadurecimento, realização e significado capaz de preencher muita fuga extravasada pelo consumo. Afinal, o bem comum também é seu! E ele pode ser intangível!


Assim se sentiu e escreveu, com exclusividade, para a Cla Magazine, Raquel de Andrade.



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