Inteiro




Você nunca comprou nada aqui? Já lhe vi na loja algumas vezes...Esta foi a forma que a vendedora usou para me “saudar” ao me atender e constatar que eu ainda não era cadastrada na loja, durante a primeira compra. Admito que senti vontade de dizer o quanto aquele comentário fora indelicado, mas os embates da vida são tantos que preferi guardar energia para algum mais relevante. No silêncio das minhas reticências, lembrei que minha própria mãe fez questionamento parecido, quando eu tinha quatorze anos e destoava das meninas da mesma idade por não ser consumista e não ligar para a moda. Então, esta lembrança caiu como um bálsamo de perdão para o questionamento da vendedora, enquanto também me lembrava da minha essência austera.

Talvez, para a minha geração o meu padrão de consumo e o meu estilo de vida sejam mesmo minimalistas. Para mim, contudo, sempre fica a sensação de que posso enxugar, reduzir a estrutura, ter menos. Sempre há um certo desconforto com o que me parece excessivo. Desde objetos pessoais, passando por utensílios domésticos e alcançando até mesmo o sagrado terreno feminino dos cosméticos, maquiagens e afins. Outro dia tratei de jogar fora um duo de sombras sem uso, cuja única “utilidade” era sujar o estojo no qual ficara guardado. Hoje, com certo arrependimento, constatei que um pincel que havia nele me seria útil para aplicar outro produto. “Esta cera pode ser aplicada com qualquer pincel chanfrado”, instruiu a vendedora, habituada a falar com clientes que acumulam uma infinidade de pinceis....

Às vezes nos despojamos demais, outras de menos. Quanto mais inteiros nos sentimos, menos precisamos ter! Mas um movimento não anula o outro. Vide o exemplo do pincel jogado fora, que agora me falta. Há um mínimo necessário para o bem-estar de todo ser, do ponto de vista material. Óbvio que este mínimo é relativo segundo cada pessoa e seu estilo de vida. Mas, a partir de um prisma consciente este mínimo tende a ser menor em uma sociedade de consumo forçada a rever hábitos, graças aos efeitos devastadores que nossa existência imprime no mundo. Se há dez anos atrás o consumo de plástico ainda era aleatório e exagerado hoje há algum cuidado, mais bolsas retornáveis na hora de fazer compras e a certeza que nada é infinito.

Convém pensar em todas as comodidades como luxos aos quais devemos recorrer pontualmente, para usufruir de cada um dos recursos com os quais nos habituamos a contar por mais tempo. A lógica é (ou deveria ser) a mesma em relação a vários outros aspectos da vida. Se prezo por meus amigos devo alugá-los o menos possível. Se alguém tem minha estima preciso cuidar desta pessoa, com respeito, atenção, zelo e por aí vai. E, se alguém me faz sentir amada oferecer de volta a expressão de todo o amor é um movimento sadio.

A beleza da reciprocidade é que ela é um fluxo automático e natural. Por vezes, nem buscamos, mas lá estamos nós retribuindo o que nos chegou antes! Nem sempre o retorno pode ser bom. Muitas vezes ele beira a indiferença, travestida de neutralidade. Noutras vezes, até mesmo a negligência assume espaço pelo que deveria ser mais qualificado. A reciprocidade só é superada pela vontade mais genuína e independente do indivíduo. Muitas vezes ele pode ter tido todos os motivos para exercer a reciprocidade mais feliz, amorosa e farta, mas escolhe o caminho oposto, em razão de questões mais subjetivas ainda e que independem do que o indivíduo recebeu.



E ninguém deve ser penalizado por isso! Ninguém é obrigado a gostar genuinamente de nada, tampouco de outra pessoa. O grande desafio é se posicionar sobre isto sem abrir mão do respeito, da consideração, da empatia, do zelo que nos faz poupar o outro de tudo aquilo de que gostaríamos de ser poupados também. Aliás, este processo é muito mais importante que o inverso, porque ele nos ensina a ser gente, para além das situações nas quais damos o nosso melhor porque queremos usufruir de um benefício, seja ele do amor de alguém ou de uma possibilidade de trabalho, por exemplo.

Como se vê, o condicionamento pode atender a finalidades legítimas. Só não pode nos limitar! O que eu quero dizer é que ser bom e correto deve ser uma constante, não uma condição circunstancial. Ok, sabemos disso! Mas será que praticamos isso? Quantas vezes você já agiu como um(a) babaca quando constatou não gostar de alguém? Quantas vezes você teve uma conduta questionável para se livrar de alguma demanda de trabalho, cliente ou mesmo emprego que deixou de fazer sentido para você? Qualquer pessoa minimamente honesta pode promover esta reflexão por um bom tempo. As respostas só interessam a cada um de nós. Mas, o que faremos deste exercício se reflete no todo. Então, seja inteiro(a)!


Assim se sentiu e escreveu, com exclusividade, para a CLA Magazine, Raquel de Andrade


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