Isolada?

Atualizado: Abr 18

Crônicas em si, sem dó


O segurou nos braços, pela primeira vez, o ensinou a fazer cocô e xixi no lugar certo, lhe deu muito afeto, mas também limites e o viu se tornar o cão unanimidade, querido por todos, em qualquer lugar por onde passava. Também esboçava um quase sorriso quando o via projetar a arcada inferior dos dentinhos, em sinal de estranheza. Não conseguia rir despudoradamente do próprio filho, a quem amava mais que a si mesma, por toda a vulnerabilidade e inocência daquele ser. Fato que é amado, muito amado, não só por ela, mas por todos com quem convive.


Afeto instantâneo e parecido surgiu quando teve o privilégio de conviver com outro cão, da mesma raça, o Dudu. Ele amava o quintal da casa em que ela viveu! Tanto assim que a visitava diária e religiosamente, pouco depois das 17h. Então, havia comoção generalizada, a começar por uma amiga de ascendência italiana, que descia as escadas correndo e gritando Duduuuuuuuu! Era o anúncio para a casa inteira correr e encontrar aquele cãozinho lindo, que adorava ganhar carinho! Nem todos são declaradamente afeitos ao toque, ao afeto físico, mas é curioso como nos enternecemos diante da voz firme e sadia da avó materna e quase centenária, seu hábito peculiar e mais que franciscano de ir à missa acompanhada de outro cão de estimação, além da percepção de que delicadeza e bravura podem caminhar juntas. A naturalidade com que declamava versos como: “És láctea estrela, és mãe da realeza, és tudo enfim que tem de belo em todo resplendor, da santa natureza” era a mesma como que portava sua pistola calibre 38, até para comprar pão, tranquila e corriqueiramente. Reflexo de uma sociedade machista e ainda covarde, na qual uma matriarca teve de defender a si mesma, a sua prole e seu patrimônio sozinha e “enfaticamente”, ao enviuvar.




E assim eram as demais mulheres da família! Todas indômitas, encontraram seus caminhos para se rebelarem contra aquilo que tentava as oprimir. O seu foi silencioso, na maior parte das vezes. Mas, jamais se subjugou! Apenas criou estratégias para se desvencilhar do que a limitava, enquanto ganhava tempo calada, sem desperdiçar energia, nem se indispor tanto contra a situação que precisava vencer. Gostava de cultivar esse modos operandi, que aprendeu ao observar seu pai, homem diplomático, gentil, amistoso, à frente do próprio tempo, jamais estimulou as filhas em prol de convenções machistas e limitadoras. Não se recordava de nenhuma situação em que fora vista como coisa ou propriedade por ele. Não lembrava de ciúmes tolos e despropositados. Exceto quando seu pai a viu partir com o homem com quem se casou. Mas, obviamente, a tristeza que observou no semblante do pai existiu por intuição de que não se tratava da pessoa certa. Tanto assim que ela própria encerrou o casamento, alguns anos depois. Ciclos terminam para que outros comecem! Então, seu recomeço foi marcado pelo resgate e expansão da própria identidade, se reaproximou dos amigos de sempre, também criou espaço para tantas novas pessoas e, com essas, conseguiu realizar os projetos idealizados por si mesma ou pelos pares de trabalho, pessoas que aprendeu a admirar! Desenvolveu o trabalho que tanto amava, em várias frentes! Mas, a vida não se limitava a isso...

Dançou, sentiu profunda alegria só de ouvir a gargalhada da amiga, degustou vinhos maravilhosos, pintou suas aquarelas, se acompanhou de músicas, se alegrou com todas as pessoas boas e especiais que conheceu, pensava na cor dos olhos do homem que conseguiu enxergar sua personalidade. Lamentou por quem não teve sensibilidade para isso, mas agradeceu por ter aprendido - até o que jamais queria se tornar, através desses exemplos. E, o melhor foi perceber que para tudo isso precisou das pessoas! Se acompanhou de todas essas lembranças, trouxe para a quarentena a experiência dessas vivências, para entender que isolamentos sociais podem ser duros, mas isolamentos emocionais são fatais. Não somos nada sem os outros! Assim se sentiu e escreveu, com exclusividade para a Cla Magazine, Raquel de Andrade.

raquelmedandrade@gmail.com Insta: raquelmedandrade 41 99108-6401 Essa crônica tem periodicidade semanal, renovada às sextas-feiras.

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