Pa(Ciência)

Atualizado: Jan 31

Testemunhei um entardecer como há tempos não via. Eram nuances do laranja misturadas a alguns tons de azul que anunciavam a noite – a última de 2020! Ano que já entrou para a história da humanidade, como aquele que ceifou mais de 190 mil vidas abruptamente, só no Brasil. Ano que mudou drasticamente nossos hábitos. E a pele das mãos denuncia o desgaste por ser lavada exaustivamente. Entre esta bobagem vaidosa e as tantas vidas perdidas, 2020 inviabilizou abraços. Fez da saudade uma “companhia” diária, permanente em nossas vidas.


Lembro bem do último dia que vi meus pais presencialmente. Foi durante o período de Natal de 2019, fazia sol, muito calor e nos despedíamos, com a promessa de que nos veríamos no Natal seguinte. Este plano não se concretizou. Além da apreensão frente à pandemia, tivemos de lidar com meu pai em uma UTI por duas semanas. Graças a Deus e aos médicos ele saiu de lá sem sequelas! Mas, se o cuidado que tínhamos já era grande, posso garantir que esta situação o tornou ainda maior!

Acho que todas as pessoas conscientes acabam lidando com este sentimento, mais ainda quando a ameaça à vida as espreita de forma tão próxima e ostensiva! Conosco não foi diferente! São tantas as variáveis que podem ocasionar contaminação que suspendemos o planejamento que me levaria ao Rio de Janeiro de volta, para cumprir a alternância de tê-los recebido em Curitiba, durante o Natal anterior. O resultado positivo desta renúncia é a consciência muito tranquila de que realmente os amo e sou amada. Sim, neste momento, a maior prova de amor que podemos dar a qualquer pessoa é a distância.

Pensem comigo: imaginem se - ao embarcar em um avião eu sou contaminada com uma das cepas inglesas 56% mais contagiosas que as demais e que ainda são indetectáveis, mesmo através do PCR? Imaginem se isso atinge minha mãe – já idosa, ou suscetibiliza meu pai em algum nível, já que ele acabou de sair de uma UTI? Imaginem se a minha única irmã é prejudicada em função desta possibilidade? Imaginem se eu mesma nem conseguisse superar a mutação do vírus, com apenas 39 anos e tanto por viver? Há que se preparar para o pior, justamente para evitá-lo! E isto em nada quer dizer uma “visão negativa da vida”, mas uma ótica responsável e preventiva, que mantenho por extremo amor e respeito à própria existência, assim como a dos demais!

Onde quero chegar ao falar nisso logo no segundo dia do ano? Quero lhe mostrar que o ano mudou e isso nos agrega uma alegria simbólica e muito importante para renovarmos as esperanças de que ele será melhor, muito melhor que o ano passado! A tendência é mesmo esta! Afinal, a humanidade já superou alguns dos traumas trazidos pela zoonose que passou a nos atingir. Desde o choque pela alta transmissibilidade deste vírus, até as mortes repentinas, passando pelo entendimento de como ele atinge o organismo, até às formas de tratá-lo, evita-lo e, principalmente, se aproximando da vacina, única forma efetiva de reduzir o problema, criamos uma escalada de superação coletiva. Ela sugere soluções!

Mas, precisamos entender e lidar com o fato de que a situação ainda é peculiar. E, circunstâncias diferentes pedem atitudes diferentes! Então, realmente não consigo aceitar o fato de que as pessoas coloquem a vontade de manter antigos hábitos na frente da própria vida e também na frente das vidas das pessoas que amam! Porque é este o efeito de reuniões sem máscara entre pessoas que não moravam juntas antes da pandemia começar e mais ainda o de viajar e promover aglomeração! E, vamos combinar: imagens que comprovam as duas situações sobraram no feed de todos nós, durante a última noite!

Acreditem, é perfeitamente possível se sentir feliz e pleno sozinho em uma noite festiva! Eu vive esta experiência e não fui a única! Além de ouvir as músicas que me colocam em uma frequência de alegria, eu me dei uma ceia caprichada, raros e preciosos momentos de ócio em uma rotina baseada em trabalho nos sete dias da semana e apreciei o entardecer mais bonito dos últimos tempos! Isso, sem falar nas mensagens emocionantes entre pessoas que considero especialíssimas para mim! Há que se nutrir do invisível e cultivar a paciência, para não nos tornarmos pacientes, no sentido hospitalar, nesses tempos – sobretudo enquanto não existir vacinação.

Como você alimenta a sua alma? Como você espanta a saudade? Onde você guarda os seus afetos? Como você expande o seu eu mais essencial? O que lhe rende a sensação de inteireza e plenitude nesses tempos delicados? Sejam quais forem as suas respostas eu desejo muito senso de responsabilidade, autocuidado, zelo e amor quanto à sua própria vida e quanto às vidas das pessoas, em geral! Beijos e feliz 2021 para todos nós!


Assim se sentiu e escreveu, com exclusividade, para a CLA Magazine, Raquel Med Andrade.


raquelmedandrade@gmail.com

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