Poder

Acabara de ler um livro cuja trama se desdobra em torno de uma mulher entregue ao amor enquanto seu parceiro se esgueirava deste sentimento. Se perguntava quantas vezes esse padrão foi repetido, já que - não por acaso - fora motivo de livro bem distribuído, pelo país inteiro! Somava à ficção os muitos relatos de amigas, que reportavam a mesma queixa, além do que ela própria mapeara nesse sentido.

Seriam questões culturais, biológicas, personalíssimas a gerarem este quadro? Talvez, uma mistura de todos esses fatores juntos? Antes de qualquer conclusão, lembrara da amiga divorciada, mãe de duas crianças, que admitira estar feliz ao lado de uma mulher, mudando tanto o curso da própria história afetiva, assim como o suposto bloquei sexual quanto às pessoas do mesmo gênero, meses antes declarado, em uma roda de amigas, que falavam dos desenganos amorosos...Considerava que uma parcela das pessoas que passam por processo parecido poderiam ter chegado a este lugar por exaustão de lidar com a conduta dos muitos homens fugidios quanto ao amor.


Presos 1 - Cla Ribeiro

Pessoalmente, essa “conversão” ainda não era uma possibilidade para ela. Sim, também estava cansada, mas a alternativa foi a de desconstruir expectativas, enquanto mantinha a disposição de viver o que cada circunstância com o ser apreciado lhe apresentava. Óbvio que esta decisão fora produto de um processo. Dedicou algum tempo, além de conversas com amigos mais próximos, com quem debateu sobre o sentimento de frustração e vazio. Fez o mesmo com o próprio motivo de tanto afeto. Elaborou, pensou conjuntamente, pensou sozinha. Entendeu que deveria soltar, deixar ir qualquer necessidade que a pusesse em zonas de impacto a partir do sentimento e disponibilidade alheios.

Lembrou-se que a única constante da vida é a mudança. E nenhum ser vivo está imune ao processo de transformação. Então, ficou em paz diante do que enxergou! Se deu conta que os seus próprios sentimentos também são como um rio que corre para o mar. Em constante movimento, eles seguem corajosos e dispostos a fluírem na direção da própria expansão, o que pode subentender mudança, não apenas continuidade...Se permitiu fazer movimentos não sincronizados, independentes da reciprocidade, “apenas” para exprimir o que sentia, porque prezava cada vez mais pelo poder que há nisso!


Beijos Salgados - Cla Ribeiro

Então, se apaixonou por ser! Ser capaz de exprimir tudo aquilo que sente de forma não condicionada! Já que não há qualquer razão para regular a própria vontade, contanto que ela não oprima ou fira quem quer que seja. Assim, na hipótese de consenso e bem-estar se permitiu viver cada instante. Tomou fôlego através deles, tornou à própria rotina mais leve que nunca, continuou querendo bem a quem sempre quis, mas não sentiu mais o vazio que sentira antes. Então, ela ganhara também a capacidade de planejar detalhes da própria vida prática incluindo o ser apreciado, a despeito de qualquer indefinição.

Provavelmente, porque o afeto que sente é genuíno, mas também sabedor de que quem se torna parte de sua vida o faz de forma convicta. E, se há ausência desta clareza ou convicção, não há qualquer cabimento e merecimento para um lugar cativo. Então, por qual motivo planejava? Simples! Considerava justo converter toda a maré de entusiasmo emocional em planos, ações e mudanças construtivas – para si própria, antes de mais nada! Afinal, na pior das hipóteses, o motivador de tantas coisas boas a inspiraria a criar um ótimo meio de cultura para a mais absoluta felicidade, ainda que essa realidade caia como um presente a ser usufruído por outra pessoa, caso o romance não vá adiante. Afinal, como canta a canção, “Se você não quer tem quem queira!”.


Cores - Cla Ribeiro

Não, ela não desejava outro homem, também não procurava por ninguém além do ser apreciado. Não estava disposta a substituir afetos. Mas entendia que, na hipótese do romance não continuar o tempo se encarregaria de colocar em sua vida alguém capaz de amar e ser amado! Isso é natural. Por vezes demora, demanda recolhimento, retiro, revisão, mas acontece! E, para qualquer eventual fim, sempre há novos começos! E, entre uma etapa e outra, há outra música, bem cafona, que canta o seguinte: “Foi mas não é mais a minha notificação preferida! Foi mas não é mais o número um da minha vida!”

Então, independente dos desfechos os conclusões, do curso que o rio de sua própria vida tomasse, seguia apaixonada por existir, pela possibilidade de aprender mais sobre si mesma, a cada dia, percebendo que o autoamor é poderoso e também consentindo todos os lances de expressão de afeto a quem inspirava este sentimento, para provar o poder maior de se permitir expressar, assim como já fazia ao escrever, pintar, cozinhar e criar o que quer que fosse!

E você, onde o seu coração é só seu? O que você encontra nele? De que inseguranças se livra quando se permite fazer o que tem vontade, independe da resposta, espaço ou gesto recíproco que há do outro lado? Como é o poder que você experimenta quando alcança este estágio?


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