Preconceito

Atualizado: Jul 11

Só quem já foi repórter ou editor sabe da trabalheira que é começar uma edição de boletim, jornal e, mais ainda, revista, do zero. Conceber ou fazer manutenção de uma linha editorial, elencar os assuntos que serão abordados, refletir sobre a relevância de cada um deles para o perfil do púbico, que cada veículo de comunicação tem, acionar as fontes, os entrevistados, os colunistas, construir todo o material, apurar, redigir, editar. Não é fácil! É um exercício criativo e intelectual submetido ao tempo, ao prazo, já que nada terá valor depois da data limite, por mais bem executado que esteja.


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Assim, vocês podem imaginar que a “viagem” por todos os assuntos demandada pela construção dessa revista, por exemplo, é vasta, interessante e longa. Há momentos nos quais rechaçamos uma ideia, abraçamos algumas e nos apaixonamos por outras. E esse foi o caso da sugestão de pauta que me chegou, a partir de minha mãe. Um dia depois da data que comemora o Orgulho Gay ela me mostrou uma postagem sobre um empreendedor arrojado, bem humorado e especialmente corajoso! O rapaz teve a ousadia de batizar seu próprio negócio como “O pão que o viado amassou”!

Então, minha mãe me sugeriu: “Você poderia incluir esse assunto entre as notas da coluna ‘Paraná para Amar!”. Sugestão mais que pertinente, tendo em vista a coragem, a originalidade e a proximidade em relação à data mencionada. É fato que teria sido honroso noticiá-lo ali. Mas foi muito, mas muito melhor dar a ele um espaço maior e mais nobre, que pode ser conferido entre as páginas dessa edição especial. Além de tocar em um ponto evitado em uma Curitiba ainda machista e muito conservadora, “O pão que o viado amassou” escancara o preconceito que é de todo o Brasil também. “O gay é aceito enquanto é piada, caricatura. Tanto que o personagem Félix gerou polêmica quando se apaixonou e a possibilidade de um beijo entre gays, na TV, mobilizou o país”, ponderou o entrevistado, sobre a pretensa aceitação da realidade homossexual.

Se, entre casais héteros é perfeitamente aceitável beijar publicamente por qual motivo isso ainda constrange ou choca quando parte de gays? A questão ainda vai pairar por aí, todas as vezes que qualquer um de nós, héteros, resistirmos ao fato de que somos hegemônicos, mas não somos únicos. Há outras realidades e elas merecem tanto respeito, acolhimento e apreciação quanto à norma ou aquilo que se convencionou como padrão.

Por trás dessa defesa, lembro do depoimento que me chegou a partir do mesmo entrevistado, quando o indaguei sobre a existência de conversas que dessem vida ao propósito de inclusão que a marca carrega. Segundo ele, elas existem e são densas! A mais receite ocorreu um dia antes do fechamento dessa edição e começou a partir do relato de um jovem, que procurou o instagram da marca e enviou uma mensagem na qual se declarava relutante em assumir a própria sexualidade, mas se sentia inspirado e apoiado diante da existência e militância do “Pão que o viado amassou”.


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Para além da comunidade gay, quis saber quem apoia a marca e compra seus produtos. Tive a surpresa que senhoras de idade, frequentadores de uma igreja católica e seu respectivo padre são clientes recorrentes, em mais uma demonstração de que - falem o que for – a religião Católica está entre as de maior sensibilidade social, dentre todas. Segundo o empreendedor e responsável pela marca, pessoas heterossexuais e não pertencentes ao meio LGBTQIA+ formam a maioria dos clientes assíduos e consumidores do “Pão que o viado amassou”, o que também é bom sinal, já que o símbolo do movimento de inclusão embala os pães e entra nas casas das pessoas, o que pode contribuir – pelo menos – para uma reflexão sobre o quanto ainda discriminamos os gays, pelo motivo mais cruel que pode existir. Afinal, jamais me lembro de ter sido discriminada por ser heterossexual, por exemplo. Ou seja, não há qualquer cabimento razoável para discriminar alguém por ser gay.

“Ah, eu não tenho preconceito!”, muitos podem dizer. A esses eu pergunto: como reagem ao beijo público entre gays?

E a vocês, eu pergunto: onde guardam o preconceito que insistem em negar?


Assim se sentiu e escreveu, com exclusividade, para a CLA Magazine, Raquel de Andrade.


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