Primordial

Atualizado: Jan 31

Diante de tantas vidas perdidas para o COVID-19 a sensação de me arrastar doente até um mercado e catar caixas grandes de papelão, para encaixotar a mudança foi perfeitamente suportável! Afora isso, fazer a mudança ainda debilitada, passar massa corrida, pintar todo o apartamento e promover a manutenção do antigo endereço sozinha foi, sim, sacrificante, mas também serviu para reforçar o sentimento de autoestima e a certeza de que qualquer pessoa ou circunstância que me deprecie não tem nem terá espaço em minha vida!

As experiências que descrevi acima são simples mas, depois de passar por elas, entendo o orgulho dos imigrantes, assim como dos migrantes também. Ambos assumem desafios e se despojam de confortos dos quais usufruíam em seus respectivos pontos de origem, em busca do recomeço de que precisam na terra nova. E este caminho de construção ou expansão pessoal pode não ser fácil, mas rende autoamor em nível grande o bastante para discernir quem merece caminhar ao nosso lado ou, simplesmente, se aproximar de nós.

Não, não estou praticando autodefesa, tampouco autoerotismo. Não se trata disso, é bem mais simples! Assim como a maior parte das pessoas, eu já vive romances que nem deveriam tem existido! Aquelas circunstâncias nas quais promovemos o ser apreciado a um patamar emocional e moral ao qual ele jamais deveria ter acesso. E, fazemos isso, por diversos motivos. Pureza d’alma, vontade de viver uma parceria agregadora, carência ou absoluto cansaço por todas as tentativas frustradas anteriormente. Acontece que antes só que mal acompanhada!

Por qual motivo falo disso agora? Porque o adoecimento revelou um mais um abismo desses, que nos abrem os olhos, enquanto nos promovem um imenso senso de valor próprio, tamanhas e tão sucessivas são as batalhas que precisamos vencer, para sairmos vivos desta doença. No meu caso, ela foi só o começo de outras, já mencionadas por aqui. Na realidade, ainda estou um tanto acampada no novo endereço, tanto que esta crônica será salva em um pen drive, que, por sua vez, será entregue ao meu publicador, em mãos!

Sacrifício pouco é bobagem, perto de tantos outros que não caberiam neste relato....Em nome daquilo que valorizamos fazemos o possível e o impossível também! Em um desses momentos críticos, minha amiga e médica


Tatiana Botelho me chamou a atenção. “Raquel, vi a live na qual você repercutiu o falecimento do Maradona. Você estava tossindo! Pare! Descanse, se cuide!” , dizia ela bem apreensiva do outro lado da tela. Certíssima, inegável! Mas, diante da incerteza suscitada pela doença quem há de condenar a vontade do indivíduo de morrer fazendo o que ama? Lembro que o acesso de tosse, ao vivo, me desconcertou de tal maneira que desandei a falar imprecisões por absoluto constrangimento e nervosismo. Mesmo assim, valeu a pena! Entre um cof cof e outro, tirei do querido colega de faculdade André Gonçalves declarações em primeira pessoa, sobre sua experiência de entrevistar o gênio argentino. Coisa que tornou a entrevista peculiar, além de digna para homenagear o ícone celebrado para além das quatro linhas.

Aliás, é estranho dizer, mas sou até grata à experiência de ter tido covid-19, pois desde então, o senso de urgência e prioridade quanto a fazer da minha carreira a experiência mais viva e feliz possível está mais forte do que nunca! Tenho sido contemplada com pareceres maravilhosos de especialistas incríveis, sobre os mais variados assuntos! E, o que era um perfil fechado de Instagam se tornou espaço para entrevistas e conversas ricas em informação e reflexão também!

Agora, lhe pergunto, se só lhe restasse a completa incerteza quanto à vida, o que você faria e quem teria a seu lado?


Assim se sentiu e escreveu, com exclusividade, Raquel de Andrade, para a CLA Magazine


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