Reconfigurar

No dia anterior gravara até uma da manhã. A finalidade era promover uma viagem gastronômica para a França e para a Rússia. A cozinha pode ser básica e resumir o universo individual de cada um, mas também pode ser generosa, gigante, universal! Abarcar várias culturas! Enfim, viajamos através da comida, com a preparação de tantos pratos, alguns comentários sobre eles, aquela contextualização que dá sentido para coisas aleatórias até aquela experiência.


Foto: Cla Ribeiro

Como é delicioso o nosso trabalho de descortinar realidades! Mas não é fácil...Nesse dia, incluímos figurinos em quantidade ao equipamento pesado e numeroso. Afinal, tínhamos a missão de gravar uma série inteira em um dia. Chegamos ao set com o volume de sempre, além do quase armário, que incluía a troca de roupas, calçados e assessórios. O público precisa identificar frescor, para consumir qualquer conteúdo e faz isso mesmo de forma indireta, percebendo o que está além da mensagem central. Nesse embalo, lembro do colega me avisando sobre um detalhe gasto da maquiagem. Tudo foi corrigido da melhor forma possível, para uma produção de equipe mais que enxuta, como é o caso da nossa.

Horas mais tarde, já na privacidade da minha casa, ao acordar, em uma das manhãs mais frias do ano, contava poucos minutos para mais um compromisso de trabalho. Havia dormido muito pouco, estava cansada, moída, encolhida pelo frio, mas lá fui eu. Encerrado o trabalho, me dei algumas horas de intervalo. Saí caminhando pela cidade, precisava me sentir parte de algo maior que a minha própria casa, trabalho e universo individual. Precisava experimentar de novo a sensação de estar integrada com o meio ou, pelo menos, reviver a experiência de observá-lo.

Foto: Gerson Klaina/Tribuna do Paraná

Caminhei pelas ruas do bairro, alcancei o bairro vizinho e tão visitado, me dei conta de que todos os lugares que eu gostava de frequentar estavam fechados, por força de um decreto. Então, busquei ruas paralelas. Com tudo igualmente fechado, a arquitetura das construções ficou em evidência e se somou ao ar frio, ao sol tímido e aos agasalhos pesados, para criar uma atmosfera singular. E foi aí que comecei a fazer a verdadeira viagem! Mas interessante que a realizada no dia anterior!

Com as mãos aquecidas pelo interior do bolso do meu sobretudo espesso, tive o conforto de que precisava, para andar sem pressa, como uma turista que acaba de chegar ao seu destino. Então, me transportei para um tempo e lugar no qual só se consegue acessar o básico. Mesmo assim, com certo esforço. Precisei andar alguns quilômetros, para comprar um material improvisado para as minhas aquarelas e alguns itens para a casa, em um armarinho. Já na feira livre, que tive a sorte de encontrar, garanti as frutas. Na farmácia, o hidratante para salvar a pele do ressecamento do frio de três graus, indicado pelo termômetro.

Lembrei do relato materno, que dava conta do baixo consumo, do fato do dinheiro não circular tanto, há algumas décadas atrás. Comemorei essa austeridade! Enxerguei que ela nos empurra “para dentro”, para a nossa própria essência, para a criatividade e para o uso responsável de todos os recursos. É fato que a sociedade de consumo cria a ilusão de que ter é ser, enquanto engole ou pelo menos embota o que realmente é precioso em tantas almas....

Foto: Fernando Castro/G1

Mas, há o outro lado dessa moeda...É evidente que toda essa engrenagem gera emprego, trabalho e renda para muita gente! Pessoas que, hoje, estão em absoluto desamparo. E o que fazer disso? Ao chegar em casa, li uma manchete chocante. A notícia dava conta de que o número de brasileiros desempregados supera o de empregados. Se é real ou fake, não apurei para saber. Porque a verdade escancarada pelo número de empresas que faliram ou fecharam as portas e pelas consequente enorme quantidade de placas que anunciam venda ou aluguel de imóveis comerciais, no meu entorno, comprova uma conjuntura social bem desafiadora e que vai precisar de algum tempo para se reconfigurar.

Chegamos a uma situação extrema, na qual o dono de um bar tradicional da capital paranaense, por exemplo, considerou mais produtivo doar o negócio que tentar recuperá-lo ou vendê-lo.


Foto: Cla Ribeiro

E você, o que deixou de fazer sentido em sua vida? Do que você pode e quer abrir mão? E o que faz questão de manter?

Assim se sentiu e escreveu, com exclusividade, para a CLA Magazine, Raquel de Andrade


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