Responsabilidade

Estava em casa e chegava ao fim de mais um dia puxado de trabalho. Eles já somam mais de oitenta sem nem uma única folga. Tudo o que havia eram horas de pausa. E, resolvi me dar ao menos uma delas, entre os processos da nova temporada do programa Show Gastronômico e tarefas pertinentes à revista eletrônica que veicula essa crônica. Somadas, as duas frentes me rendem muita realização, além de bastante trabalho. Quem se ilude ao simplificar o vídeo desconhece o fato de que ele demanda quarenta e um processos diferentes.


Modelo: Aiane Sereno

Ph: Cla Ribeiro


No terreno da escrita, quem a vê como algo automático ou só lúdico, desconhece seus critérios lógicos, demandas por referências culturais, instrução acadêmica, percepções pessoais, uma vida toda de leitura como base, além das pesquisas sobre o que convém ao público, processos de elaboração editorial, escolhas de pautas, etapas de apuração, redação e edição textual e fotográfica. Enfim, sobra trabalho na mesma proporção que sobram pessoas para simplificar o que desconhecem. Porque, assim, é mais confortável relativizar a contribuição dos profissionais da Comunicação. Já que a sociedade promove a figura do influenciador, que não faz ideia de nada disso, além da celebridade ou do “artista que não faz arte”, como canta a canção conhecida na voz do cantor Marcelo Falcão.



Modelos: Victor Santos & Jonatas Nigro

Ph: Cla Ribeiro


Outro dia, inclusive, conversava com o Cla Ribeiro, publisher dessa revista, sobre a responsabilidade social que carregamos, através de nossas atividades. A modelo que emblema a Cla Magazine não é negra por acaso, tampouco pelo “exotismo”! Há um dever afirmativo, inclusivo e corretivo como parte da finalidade de quem ultrapassa a missão do repórter imbuído em apenas informar e galga ou conquista certo espaço criativo e de liderança na atividade. Ao editor chefe de uma publicação cabe, sim, um posicionamento social. À cronista e colunistas idem! Afinal, quem cursou faculdade de Comunicação Social e teve um ou outro aluno negro como colega de classe sabe bem que as consequências da escravidão ainda são perversas e excludentes, ao ponto de transformarem a suposta meritocracia irrestrita como critério de acesso às oportunidades de instrução e de trabalho em uma piada.


Modelo: Michel Veríssimo

Ph: Cla Ribeiro


Quem chega ao mercado de trabalho também percebe a continuidade aprofundada disso. Não lembro de nenhuma única liderança negra, mesmo sendo natural do miscigenado Rio de Janeiro e depois de ter exercido a Comunicação profissional por mais de vinte anos. Até entre colegas e subordinados não havia esse nível de inclusão, provando que a segregação permanece, assim como o racismo. Lembro de conversar com joalheiros intrigada sobre o porquê de não empregarem vendedoras negras, tendo como resposta o triste relato de que a clientela masculina passara a frequentar as lojas da rede apenas e tão somente para paquerar as moças, sem consumir joia alguma, todas as vezes que tentaram manter funcionárias negras em posição de interação com o público.


Modelos: Antonio Brauguini & Thamy Gomes

Ph: Cla Ribeiro


A situação se torna útil para trazer à tona o padrão de comportamento, que revela o racismo, que insistimos em negar. Ele existe e é forte, à medida que limita o interesse dos homens à finalidade sexual com a mulher negra. É tão massacrante quanto a abjeta violência moral praticada de forma velada, por maridos, contra esposas, parceiras ou mesmo namoradas. Mas, humilhadas, moral, emocional e, por vezes, até fisicamente, elas se rebelam, ao ponto de estabelecerem um código social público. Agora, a campanha sinal vermelho virou pedido de socorro silencioso. Basta expor, para denunciar qualquer tipo de mal trato disfarçado de “ciúme” ou briga de casal.

Resta saber o que o Brasil quer fazer com seu vergonhoso racismo.


Assim se sentiu e escreveu, com exclusividade, Raquel de Andrade, para Cla Magazine.


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