SAGA: Oceano Amazônico

Atualizado: Jan 31

O professor Francisco Matos, da Universidade Federal do Pará (UFPA), reportou1 durante a 66ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que a Amazônia possui uma reserva de água subterrânea colossal, com volume estimado em mais de 160 trilhões m3. O suficiente para abastecer o planeta por 250 anos! O volume é 3,5 vezes maior do que o do Aquífero Guarani e comporta mais de 80% do total da água da Amazônia. Os estudos sobre a reserva se iniciaram há 10 anos tendo como alvo o Aquífero Alter do Chão, no distrito de Santarém (PA). Então foi descoberto que este integra um sistema hidrogeológico que abrange as bacias do Acre, Solimões, Amazonas e Marajó. O conjunto foi denominado Sistema Aquífero Grande Amazônia (Saga), cuja formação se iniciou há cerca de 135 milhões de anos e abrange outros países, sendo que o Brasil detém 67% da área, estimada em quase 4 milhões km2.2 Fica o alerta de que grandes áreas de desmatamento provocam uma mudança no ciclo da água, que vem sendo responsável pela recarga e manutenção do Saga ao longo desses milhões de anos. A possível redução da evapotranspiração do ecossistema, e consequentemente das chuvas, prejudicaria a manutenção do Saga. Se não houver recarga, ficará insustentável. Outra vulnerabilidade do Saga resulta da boa porosidade dos solos3 em algumas regiões, o que facilita a contaminação decorrente de atividades agroindustriais e urbanas. Em muitos locais a água é rasa (ex.: Manaus), o que também favorece a contaminação. É exatamente a precariedade do conhecimento sobre a qualidade da água do Saga uma das limitações à sua ampla utilização para o consumo. Outra limitação diz respeito à distribuição. O transporte dessa água para o Nordeste ou São Paulo demandaria obras faraônicas, impraticáveis atualmente. A reflexão que fica é que antes mesmo de termos acesso pleno ao potencial contido neste mar subterrâneo, já o ameaçamos, com desmatamento, carência de saneamento básico, garimpo, poços mal construídos. Enquanto isso, empresas de grande porte de todo o mundo estão adquirindo áreas na região para fazerem a exploração no futuro4, informou o Prof. André Montenegro Duarte (UFPA). Há razões de sobra para investirmos o que for necessário para obtenção do conhecimento científico e a tecnologia capazes de viabilizar uma gestão segura e inteligente do maior aquífero do mundo, do qual poderemos nos abastecer do bem que está se tornando o mais raro na Terra: água!



Imagem: National Geographic



Contribuição da Dra. Ana Paula B. Moreira, bióloga e pesquisadora na UFRJ. Membro da Liga das Mulheres pelo Oceano5 Instagram @nana_marin.bio Twitter @AnaPaula_BM Facebook @somostodosciencia



1 https://agencia.fapesp.br/amazonia-tem-oceano-subterraneo/19541/

2 https://www.gov.br/mma/pt-br/noticias/brasil-estuda-aquifero-tres-vezes-maior-que-o-guarani

3 https://tede.ufam.edu.br/bitstream/tede/5476/5/Tese%20-%20Anderson%20S.%20Lages.pdf

4 http://www.ihu.unisinos.br/159-noticias/entrevistas/35015-alter-do-chao-um-aquifero-de-84-quadrilhoes-de-litros-de-agua-entrevista-especial-com-andre-montenegro-duarte

5 https://www.instagram.com/ligadasmulherespelooceano/

Instagram https://www.instagram.com/nana_marin.bio/

Twitter https://twitter.com/AnaPaula_BM



Ana Paula B Moreira


44 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

2021 CLA Magazine  Todos os Direitos Reservados