Subjetivo

Ora se via super dedicada a todos os processos anteriores à escrita. Seus mais de vinte anos em torno dela pareciam de nada servir, no sentido de otimizar essa tarefa, da qual parecia fugir, nesse momento. Escrever é ver-se, antes de tudo! É se olhar e relatar o que vê, como se nem fizesse parte do ser observado. Tampouco fosse ele próprio! E, ao fim desse exercício, sentir alívio imenso e sem paralelo. Então, o que será que a dispersava de si mesma, já que é exatamente a escrita a fonte que lhe rende o sentido de viver?!


Foto: Cla Ribeiro

A alternância continuava, em outros momentos, quando funcionava como os escritores livres, sem prazos ou compromissos com as datas, mas extremamente imaginativos. Como não estava em nenhum dos dois extremos e mantém (muitas) responsabilidades a honrar se sentia desconcertada e por pouco até um tanto constrangida...

Aquele planejamento de prospecção comercial remota e agressiva que ela vislumbrara há tempos, para um dos produtos de comunicação com o qual estava envolvida até que fluía, já que se voltar para outros universos é forma mais fácil de distrair-se do que acontece de novo e interno. Como dizem, quando observamos os demais, automaticamente, deixamos de nos observar...

Já como colunista, até que toda a dispersão do momento tinha mais peso, mas sem grandes implicações negativas. Uma vez que ela conseguia manter o radar ligado para fora, mais uma vez, enquanto fugia de si mesma. Então, voltar sua atenção aos assuntos, projetos e empreendimentos alheios, para garimpar notícias interessantes funcionava como um daqueles remédios que combatem os efeitos, enquanto mantém as causas do fenômeno intactas.


Foto: Cla Ribeiro

Mas, que fenômeno estranho era esse? Sua maior característica era dispersar inadvertidamente para direção diferente da original. Um estado curioso, como se estivesse levitando, além da fuga da concentração absoluta, demandada pela escrita e uma sensação ambígua de inteireza e expansão, o que é fantástico! Mas tira qualquer indivíduo do mundo real.

Todas essas linhas, por exemplo, foram escritas ao som de música. Criando um novo paradigma. Já que, tudo escrito durante esses mais de vinte anos sempre demandou silêncio, concentração e racionalização completa. Afinal, é menos complexo relatar o que vê em si mesmo, com honestidade, com esse movimento duro, austero, mas curativo.

Nesse sentido, cabe pensar sobre o que convencionamos como realidade. O exemplo que acabei de citar mostra que ela não é estanque, mas plástica, mutável. Ela se transforma! Assim como nós! Então, será real apenas aquilo que é vivido? Em tempos de pandemia e tantas restrições até para muito do que representava o básico para a humanidade, me parece oportuno e até necessário rever o valor do que é sentido, trocado, intercambiado, do ponto de vista subjetivo!


Foto: Cla Ribeiro

E aí, todo o distanciamento social, todos os embargos que vem com ele, não invalidam o peso do que ressoa, daquilo que nos toma por inteiro...Pelo contrário! Nunca tive tanta certeza do sentimento que me faz sorrir mais que o habitual! Ele pode até ser um produto de uma fantasia unilateral, fato. Mas me faz tão bem! Que, sinceramente, quero mais é nutrir essa expansão! A quem me perguntar sua origem diria que ela se “resume” a um mergulho corajoso, emocional, daqueles feito às cegas, quando nem sabemos se há água na piscina. Arriscado? Muito! Mas, de novo, se esse mergulho contribui para tanta expansão ele, por si, já é mágico e benéfico demais!


Foto: Cla Ribeiro

A magia também fica por conta da “viagem” às profundezas de nós mesmos! Às nossas mais infindas fontes de autopercepção, entendimento, plenitude e expansão. Elas começam a surgir a partir de uma comunicação genuína, real. E seguem por caminhos de empatia, compreensão, zelo, reflexão, identificação, permissão, para desaguar em um mar, um oceano de rendição. Ela equivale à autorização para que todo o fenômeno continue a fluir, se desdobrar para todos os aspectos da vida, para todo o entorno, todas as pessoas que amamos. Faz desses também beneficiados por uma onda de boa vontade!

E você, em qual oceano mergulha? E quem leva consigo às profundezas da sua alma?


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