Urgente

Há uma premissa entre muitos terapeutas: “Quanto maior a resistência, maior a mudança”. Não sei se concordam com isso, mas eu sim! Fato que ainda tenho muito o que aprender da vida, nem cheguei aos quarenta e me alegro quando ouço ou leio sobre pessoas bem experientes se surpreenderem com algo, enquanto exclamam: “Pensava que já tinha visto de tudo, mas...”. Entendo que esse espanto nos move e justifica nossa permanência na Terra. Penso que passamos por ela para resistir, mudar, lidar com a surpresa, aprender e buscar a própria expansão, no intervalo de tempo em que processamos o novo e nos juntamos a ele, enchendo a existência de integração, frescor e sentido.


Foto: Cla Ribeiro

Sentido de quê? Para quê? Sentido de repetir processos de tentativa e erro, para fazer deles uma estrada, uma via que nos conduz aos nossos objetivos. Óbvio que isso é individual, mas arrisco dizer que todos buscamos alegrias e fugimos da dor. Assim, repetimos ou criamos buscas para essas finalidades. Elas vão desde as coisas mais singelas às mais arrojadas. Então, entre cultivar uma planta, mudar de cidade e se expor ao recomeço “do zero”, há sempre o mesmo fim, só para citar exemplos que podem ser comuns a muitos de nós.

O que é externo e está além de nosso controle também interfere. Novos ares, novo ambiente de trabalho e negócios, nova casa, novos pares de trabalho, novo clima, um novo padrão alimentar, novos hábitos, enfim. Tudo isso forma o meio de cultura através do qual nossas aspirações são buscadas. Então, as tentativas e erros para dar significado ou contribuição coletiva por meio do próprio trabalho, a convergência entre pessoas que têm objetivo em comum, as divergências entre os que têm visão de mundo diferente são partes desse todo amalgamado que nos compõe.


Foto: Cla Ribeiro

Tudo e todos nos somam, mesmo quando nos subtraem. Há lições só aprendidas desse modo. Elas não são tão felizes, mas são úteis, didáticas. Mas, para nossa absoluta alegria, há quem nos some, quem nos agregue! Essas pessoas começam, geralmente, entre os nossos pais, familiares e amigos. Esse grupo cria uma mistura de referências que nos pauta ou nos ajuda diante de muitas outras “escolhas” ou, porque não admitir, figuras “quase repetidas”, modelos de felicidade que iremos buscar, encontrar e estabelecer sintonia e trocas de grande significado.

Óbvio que o caminho e os valores de cada indivíduo modulam esse processo, de tal modo que sempre somaremos à referência de irmandade, paternidade, maternidade, amizade e afeto, adquirida desde a mais tenra idade, pontos que não existem nas pessoas que representam e/ou representaram tudo isso para nós, mais que julgamos cruciais. Esse, aliás, é o salto quântico, são as qualidades com as quais ainda não havíamos nos habituado, mas que valorizamos e realmente escolhemos trazer para as nossas vidas.

Assim, selamos o recado genético que desejamos transmitir às próximas gerações, ainda que sob forma de legado de vida, isenta de herdeiros. Por exemplo, se quero mostrar ao mundo o quanto a comunicação, a amabilidade e a cooperação podem ser determinantes para o destino feliz de toda a humanidade trato de fazer desses traços pedras fundamentais em minha vida e trabalho. Então, mesmo sem ter filhos a quem transmitir esse recado de forma mais direta, é possível criar o exemplo do valor disso entre as pessoas com as quais convivemos e lidamos.


Foto: Cla Ribeiro

A tríade foi só um dos muitos exemplos hipotéticos, anônimos e gerais que poderia citar dentro do quadro de novidades que cada pessoa busca somar ao modelo familiar que lhe foi dado e existiu na crônica, para celebrar a novidade, a surpresa, a busca que iniciou o texto. Tenho para mim, que a pandemia suscita uma grande e profunda reflexão entre todos que passam por ela, com um assombro feliz pelo fato de continuarem vivos, lamentando a morte prematura de tanta gente, amargando a estranheza de não poder dar um simples abraço e buscando novas formas de manter e criar relações de valor.

Nesse sentido, o remoto nunca esteve tão perto, a voz de quem nos entende nunca foi de tanto valor, a disponibilidade genuína de entender o outro nunca foi tão crucial, assim como nunca foi tão importante se inundar da presença de pessoas com as quais nos identificamos e por meio das quais nossa identidade, em essência, se expande! Mesmo que a ligação telefônica seja o canal mais vivo para essa aproximação.

O que a pandemia tornou urgente para você?


Assim se sentiu e escreveu, com exclusividade, Raquel de Andrade, para a Cla Magazine


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