Valor

A internet caiu e precipitou a tarefa que mais postergo. Sem comunicação com o mundo, deixei de lado o processo de apuração jornalística em torno da coluna de notas que assino e me concentrei na tarefa autoral, solitária e introspectiva, que rende as linhas desta crônica. Ela sempre é produto de uma reflexão, que me leva a pensar sobre o que sinto. Fiz um passeio pelas impressões mais marcantes dos últimos dias e um dos lances me remeteu à autossabotagem.


Foto: Raquel de Andrade

Lembrei que um colega super experiente, premiado e por quem tenho o maior apreço profissional me pedira um balanço sobre o meu trabalho, na cidade na qual escolhi viver. Com absoluto constrangimento, me dei conta de que não o atendi. E, o que sugere descaso revela, na verdade, um processo de autossabotagem, além de autocrítica severa.

Afora a tremenda gratidão por perceber a boa disposição de um colega tão experiente e querido falar sobre o meu trabalho e carreira, também senti uma mistura de sentimentos. Me emocionei por constatar – mais uma vez, na prática – que a concorrência jamais tem de ser desleal, que colegas de profissão fortalecem toda a categoria quando se apoiam. Mas, se tudo parecia tão bom e merecedor de tempo, energia e resposta por qual motivo eu adiara a tarefa?


Flores Silvestres - Raquel de Andrade

Há uma tendência hipercrítica em mim e ela me faz olhar minhas próprias conquistas sob a ótica de que elas são etapas de um processo em andamento, apenas. A parte boa disso é o combate à acomodação, à disponibilidade em procurar desenvolvimento continuado e a certeza de que não devemos negligenciar nossas ideias, potenciais e sonhos. O lado péssimo desta realidade é o quanto ela nos furta de celebrar todas as conquistas, independente do tamanho, expressão ou impacto prático delas em nossas vidas.

Quando saímos da ótica estritamente materialista e imediatista, ganhamos a possibilidade de dimensionar cada ganho pelo prisma da construção do único patrimônio real que qualquer indivíduo pode conquistar. Ele se chama memória! E como é bom construir lembranças de êxito e felicidade! O que seria da humanidade sem a memória da felicidade, durante o isolamento social, por exemplo?

Recobradas ao longo da vida, cada memória de felicidade, realização, conquista, partilha e comunhão com pessoas ou com o coletivo realimentam a sentido de encarar dificuldades, internas e externas, além de fazerem concluir que vale a pena buscar os sonhos e uma vida repleta de significado.


Voos - Raquel de Andrade

A cidade na qual você vive representa a sua subjetividade? Seu trabalho reforça o seu propósito de vida? O ciclo sócio cultural no qual você está inserido estabelece uma comunicação efetiva contigo? As pessoas que você escolhe trazer ou manter por perto tem afinidade contigo ou, pelo menos, a condição de lhe entender?

Posso lhes dizer que, há menos de dois anos atrás, boa parte das minhas respostas foi não. Então, gritava a necessidade de mudar muito do que compunha a minha realidade. Pouco a pouco venho conquistando essa transição, acredito que ela seja continuada, mas posso dizer que tenho motivos para comemorar! As conquistas que me levam a celebrar têm muito a ver com o trabalho que realizo atualmente e o tanto de significado que ele me aporta, em todas as suas frentes. Com a crônica deixo o terreno tão somente noticioso e partilho minha subjetividade com vocês, através de um texto mais solto. Com a coluna “Paraná para Amar” crio uma relação estreita com a sociedade local. Com a apresentação do programa “Show Gastronômico” passeio pela leveza do vídeo, no universo infinito da comida. E, com a Web Gallery com lançamento previsto para o dia 15 de agosto me lanço ao fazer artístico, através da exposição “Corpo e Alma”, que reúne aquarelas abstratas relacionadas ao que pode ser observado e ao que só pode ser sentido.


Onda - Raquel de Andrade

Convido todos vocês a mergulharem comigo no universo colorido da mostra e desejo que possam comemorar todas as conquistas pessoais que realizam, principalmente aquelas que nem podem ser mensuradas, as que não tem preço, mas tem muito valor!


raquelmedandrade@gmail.com

@raquelmedandrade

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