Vida ou Morte

A dor no corpo era avassaladora, enquanto me preparava para entrevistar a portuguesa Luísa Tender e o pianista brasileiro, radicado em Portugal, João Elias. À medida que as horas avançavam a indisposição só fazia crescer, assim como sensação de que um caminhão havia passado por cima de mim. Tanto que nem esmiucei a pauta, como costumo fazer. Levei a entrevista de forma orgânica, tendo a meu favor o fato de ser razoavelmente experimentada no assunto em questão. Falaríamos sobre Cultura e seu consumo, coisa que foi minha base de trabalho por sete anos, no RJ.



Quatro dias antes, me surpreendi com um espirro, coisa que também não é o meu padrão. Mas achei irrelevante. Nos dois dias seguintes ao “atchim” não senti vontade de escrever, o que é muito estranho. Já na segunda-feira estava em meio a uma gravação, feliz da vida, quando senti dor de cabeça, outra coisa que só acontece quando há algo errado no meu organismo....Na noite seguinte, muita tosse. Amanheci super enfraquecida e entendi que deveria buscar informação.

O pânico de me expor à carga viral altíssima de ambiente médico hospitalar, ainda mais debilitada, me levou a consultar remotamente duas amigas médicas. Ambas recomendaram o PCR, assim como outra amiga cientista também. Recorri ainda ao doutor Carlos Alonso, responsável pela emissão de laudo mais ágil da capital paranaense, incluindo a modalidade de coleta domiciliar e laudo em 24 horas.

Entre a primeira e última etapa a indisposição e dor só aumentavam! E foi aí que pensei, cá comigo, como não sei se algo pode me ocorrer deixe eu tratar de priorizar aquilo que julgo relevante! Dei uma pressionada pública na vereadora eleita Carol Dartora, a quem já havia acionado dias antes, pedindo uma entrevista. Prontamente, sua assessoria de imprensa me acionou e agendamos para horas depois. Também havia outra entrevista confirmada para uma hora antes. Tirei forças sei lá de onde para tratar das duas. A despeito do sorriso de alegria que pode se ver no vídeo de ambas eu estava triturada por dentro. Muita dor no corpo, secura na boca, congestão, tosse, sensação de fraqueza e mil aftas na boca, em consequência de tanta acidez, já que estava usando vitamina C, D e mais quatro outros medicamentos.

O laudo me chegou por e-mail vinte minutos depois de encerrar o expediente. Ao vê-lo tive certeza de que o covid me alcançou. Além de avisar às poucas pessoas com quem tive contato, em função de compromissos de trabalho, tentei – em vão – localizar o momento do contágio. Cla Ribeiro, fundador desta revista, se declarou perplexo, já que estou sempre de máscara e levo o isolamento social a sério.

Diante do que parece inexplicável nos resta resignação e tratamento. Parte dele é o tal do repouso. Uma das queridas médicas que tem me dado incrível suporte quase implorou para que eu suspendesse meus compromissos de trabalho. Então, cancelei todas as entrevistas que haviam sido programadas para os próximos dias e estabeleci meu esquema tático constituído pela rede de apoio. Falei com todas as pessoas chegadas e combinamos manter a comunicação, o monitoramento e o socorro, se assim fosse preciso.

Com tantos medicamentos, os sintomas mais incômodos se atenuaram. A única coisa chatinha que aconteceu foi a garganta inflamando. Ela sempre foi meu calcanhar de Aquiles. Quando ela começou a arder senti preocupação e me reportei à “Junta médica” que me cuida de longe. Uma delas recomendou que eu fosse para a emergência. Mas, o querido Cyro, também médico prescreveu medicamento como alternativa.

A essa altura, vocês devem estar se perguntando por qual motivo falo de tudo isso por aqui. Minha resposta é uma reflexão. Repararam que, em nenhum momento, os passos resolutivos foram providenciados por plano de saúde, mas sim pela rede pessoal de apoio? Admitamos, ela é constituída por critérios sócio culturais. Se eu e você fazemos parte de uma bolha capaz de pagar o preço do exame de rápido diagnóstico e dos muitos remédios, além do burocrático plano de saúde esta não é a realidade da maioria das pessoas!

Mais de 70% dos brasileiros dependem do SUS! Onde quero chegar ao entrar neste mérito? Se você não viu qualquer importância no decreto presidencial que sujeitava o Sistema Único de Saúde à privatização de muitos de seus serviços – em termos práticos – você é desumano! Ah, Raquel, o decreto foi revogado! Verdade, mais o presidente que o criou um dia permanece aí! O que acende um sinal vermelho para outras investidas que podem ter efeito prático parecido. Além de aniquilar a única alternativa que a maioria das pessoas tem para suporte de saúde este tipo de desmonte também atinge quem está na bolha. Onde você acha que vai parar o preço do plano de saúde que nós pagamos, quando a saúde privada for a única alternativa?


E, você passa ao largo de tudo isso, me diga uma coisa? Se até uma pessoa que faz isolamento social desde março e só sai de casa com máscara pegou esse raio deste vírus está bem claro que é totalmente inseguro, além de irresponsável participar de qualquer tipo

de reunião presencial entre pessoas que

não moravam juntas antes da pandemia começar! Afinal, ninguém se reúne sem tomar um único cafezinho! E, é justo nesse momento que o contágio pode acontecer! Se acha que sou alarmista, eu tenho um dado para partilhar: a busca por exames de detecção de covid subiu 150%, só no Paraná, nos últimos dias, de acordo com notícia veiculada pela RPC.

Agora, minha garganta ainda arde e eu torço para que isso passe, assim como os outros sintomas. Porque ainda tenho muito o que combater neste mundo, no qual uso e usarei meu trabalho para esta finalidade, sempre que entender necessário!




Assim se sentiu e escreveu, com exclusividade, para CLA Magazine, Raquel de Andrade.


raquelmedandrade@gmail.com

@raquelmednadrade

41 99108-6401


133 visualizações

2020  -                                      CLA Magazine  Todos os Direitos Reservados